Ontem fui a um sebo de livros, encantador apesar dos apelos que nos oferecem as livrarias modernas com seus cafés, espaços de leitura e os últimos lançamentos. Os sebos despertam em mim o gosto pela aventura. Me transformo numa exploradora, andando entre as prateleiras que me atraem como um oásis de letras.
O que me encanta é folhear volumes que trazem uma história secreta, além da própria literatura. Avalio as edições antigas, as capas duras que enobrecem obras vindas sei lá de onde e que estão ali à espera de um novo dono. Livros para mim têm alma. E por mais que cresça meu interesse virtual, eles sempre serão objetos afetivos que carrego para onde bem entender e nos quais aprendo e, às vezes, grifo lições e frases que me tocam.
Busco nas páginas indícios do seu passado, o DNA do antigo dono. Entre as relíquias que já encontrei em livros de sebo, estava o menu de um navio, coisa dos anos 50, com pratos que me fizeram viajar pelos sete mares. Não há limites para a imaginação quando encontramos entre as páginas outros objetos. Cartões, bilhetes, flores secas, recibos esquecidos e as dedicatórias: ''De Pedro para Maria, com amor. 1967.'' Fico pensando onde andarão Pedro e Maria, quase três décadas depois.
Difícil é escolher os livros, gosto de tanta coisa. Mas elejo assuntos, se hoje o filão é literatura americana, amanhã poderá ser literatura regional brasileira e meus olhos se perdem no mapa até encontrar aqueles que me ganham no primeiro instante. Ontem trouxe para casa cinco volumes, como se não existissem uns 300 à espera de estantes que prometo providenciar para tirar obras-primas do chão. Aqui não cabe mais nada e eu ainda compro livros. Será mania, algum traço psicótico ou puro gosto? Há muito tempo desisti da análise e não vivo sem eles. Uns para consumo imediato, alguns que são obras de consulta, outros para os dias em que poderei degustar cada linha sem pressa. Comparo livros com bebidas. Cerveja para o cotidiano, uísque pra desligar a chave de tudo, champanhe para lenta apreciação.
Trouxe para casa sonetos de Bocage - os líricos, não os satíricos - uma antologia de Tomás Antônio Gonzaga, um best-seller mundano, um ''guisado de memórias gastronômicas'' de Ruth Reichl - onde ela ensina a conhecer pessoas a partir do quê e de como comem. E, num impulso de maternidade zelosa, também trouxe mais um volume de Monteiro Lobato para as crianças. Para conquistá-las, amarrei o livro com um laço cor de ouro e deixei um bilhete carinhoso. Moscas e garotos a gente pega com mel. Os meninos curtiram, sei que vão ler. Mas, por enquanto, nem folhearam. Vivemos tempos difíceis para ensinar crianças a gostar de ler. É preciso ter idéias, criatividade e, se preciso, preparar uns truques. A história de Lobato concorre, esta semana, com um brinquedo moderno que acabaram de ganhar: a coleção 'Ovos de Dragão' que, eu confesso, é encantadora. Dragões de gelo e dragões de fogo que montam e desmontam, espichando ou encolhendo as asas. Quanta sedução! Mas na hora de dormir, quando bater o aconchego, vamos ler a história de Emília no País da Gramática e o velho encanto da literatura será tão poderoso quanto os animais míticos que vou pôr pra descansar bem longe, bem fechados nas suas caixas. Tenho medo que voem, roubando a cena de outros personagens.
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