PONTO FINAL
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de novembro de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
Quem me conhece, sabe que eu adoro gatos. Acho bonitos, dengosos, inteligentes. Ao contrário do que muita gente pensa, não são apenas bichos interesseiros, mas capazes de ronronar no colo do dono retribuindo afagos de maneira única. Para isso, ligam um 'motor' que parece uma cantiga de ninar para eles mesmos e que soa aos meus ouvidos como uma modinha íntima.
Minha convivência com os gatos vem da infância e perdi a conta de quantos tive. Os mais curiosos, afetuosos e aventureiros deixaram histórias de ternura. Certa vez, um deles demonstrou um senso de solidariedade que muitos humanos não têm, salvando um filhote da enxurrada. Outro, me trouxe de presente uma folha seca, carregando aquilo na boca como se fosse uma caça de grande valor. O mais engraçado, encontrou um camundongo num tijolo de furos e como o rato se escondeu, o gato ficou um bom tempo esperando do outro lado, até pegar o incauto num ato de maestria felina. Por fim, o mais sedutor, quando percebeu que foi adotado lá em casa, não perdeu tempo e, no dia seguinte, apareceu com a família inteira, duas gatas e meia dúzia de gatinhos. Levei um tempo para compreender que o danado era bígamo. E mais um bom tempo para arrumar novos donos para aquela população faminta. Por sorte, uns tinham alguma 'raça'. Um quarto de sangue siamês para o restante de pura viralatice. Eram aquilo que eu chamo de um gato 'básico'.
Tenho dois bichanos lá em casa, mãe e filho que nunca se desgrudaram e ele, de vez em quando, parece querer uma relação incestuosa. Pensando bem deviam se chamar Édipo e Jocasta. Eles são boa companhia nas madrugadas quando ficam ouvindo o barulho das teclas do computador numa cumplicidade que às vezes só é possível entre bichos e gente. De vez em quando, se interessam pelas coisas que aparecem na tela do PC. E, do mesmo jeito que fazem com a televisão, tentam pegar coisas em movimento. Só não gostam de ver cachorro grande e objetos rápidos fazendo barulho. Mas são fascinados por outras imagens, como borboletas e passarinhos. Os gatos são parceiros do silêncio, das noites enluaradas, dos domingos de preguiça e da leitura dos jornais. Às vezes penso que alguns entendem de música, literatura, sexo e política. Até por isso, muitas personalidades foram ou são apreciadoras de gatos. Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Paulo Francis, Ferreira Gullar, só para citar alguns.
Não à toa, gato é sinônimo de beleza ou de malandragem. Para mim são sobretudo sinônimo de liberdade, o tipo de bicho que não aceita coleira. No meu ponto de vista, muitas pessoas são injustas com eles, fazendo aquela associação clichê dos gatos com a bruxaria. Como vocês sabem, na Idade Média muitos bichanos queimaram na fogueira com as suas donas, sendo que ninguém devia nada ao 'coisa ruim'. Em compensação, no Egito, eram símbolo de poder e proteção e, de tão endeusados, gozavam de um status que lhes permitia ter vida de rei.
Por pura brincadeira, costumo fazer uma correlação entre certos hábitos dos gatos e dos homens. Mas vou logo avisando que se trata de puro exercício de humor. Se vocês conhecem bem as duas 'espécies' vão me dar razão. Então vamos lá:
- Homens são como gatos, adoram peixes, desde que a gente limpe as escamas para eles.
- Homens são como gatos, numa briga só sossegam se a gente jogar um balde de água fria para apartar o entrevero.
- Homens são como gatos, quando menos se espera, eles chegam por trás e colam o focinho gelado na gente.
- Homens são como gatos, adoram pular o muro para namorar a gatona da vizinha.
- Homens são como gatos, só levantam do sofá quando sentem cheiro de bife na cozinha.
- Homens são como gatos, às vezes não gostam da mulher, mas gostam da casa e vão ficando.
- Homens são como gatos. Se você os chama , eles não vêm, se não chama, aparecem quando você menos espera e pulam no seu colo.
- Homens e gatos têm uma diferença. Quando fazem xixi, eles sempre erram a mira no vaso. Os bichanos, ao contrário, sabem direitinho onde está a caixa de areia.
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