PONTO FINAL
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de fevereiro de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
Era sábado. Eu tinha acabado de instalar minha rede na varanda, ainda não tinha pegado no sono, quando um grito me tirou qualquer possibilidade de sonhar. Um cara dizia no portão: ''Boa tarde. Hoje é seu dia de sorte!'' Dei o primeiro pulo, pensando num assalto à mão armada, e ele emendou: ''Tenho aqui tudo o que você precisa comprar sem sair de casa.'' Não demorou pra minha ficha cair, eu estava recebendo a visita de um vendedor treinado para a função, segundo os infalíveis métodos americanos. Porque não sei se vocês sabem, mas desde os anos 40, os gringos treinam pessoas para vender como quem vai para a guerra. E, de vez em quando, topamos com estes tipos que estão convencidos de uma verdade suprema: vender é uma questão de vida e morte. Eles formam a seita do cifrão.
Eu não sabia direito a origem destes ''discípulos'', até que um amigo psicólogo, que trabalha com recursos humanos, me falou dos treinamentos, palestras e livros que hoje as empresas utilizam pra condicionar pessoas a vender. Enquanto a figura gesticulava como um pregador de igreja, eu me afundava na rede e lembrava da última vez que comprei máquina de calcular, um toldo, óculos rayban e um passarinho eletrônico - meu Deus para que eu preciso de um passarinho eletrônico! - convencida por um sujeito falante que aquilo era tudo de bom. Eu, que na verdade adoro mercados, pechinchas e faço das compras uma coisa lúdica, depois desta última mancada tinha jurado acionar o senso crítico para me defender das tentações da compra e venda.
Sim, lembrando de tudo que é falsificado mercado, eu também havia jurado que nunca mais entraria em salão de beleza chamado Chérie (que de francês só tem o nome); em padaria chamada Tosa (porque isso é nome de clínica veterinária) e por nada, nadinha, compraria qualquer produto em loja que substitui no nome o C por K em palavras de uso corrente da língua portuguesa como Carícia, para quem vende pijamas ou Caramelos, para confeitaria. Eu tinha chegado à conclusão de que é falso e brega substituir o C por K. Mesmo assim, outro dia uma cigana me enganou com uma tabuleta de ''kartomancia'' e me levou 30 reais. Enfim, eu não sei como essa gente consegue me vender tanta bugiganga.
Com o vendedor já instalado na minha varanda, eu mal podia me embalar na rede e em menos de 10 minutos estava com um catálogo de compras na mão. De repente, um livro na sua maleta me chamou a atenção e eu lembrei do meu amigo psicólogo que havia me alertado sobre os novos tentáculos do capitalismo. Lembrei também das minhas técnicas de entrevista e comecei a dar corda para meu interlocutor para saber o que estava escrito nas páginas de O Maior Vendedor do Mundo, a bíblia dos negócios escrita por um americano chamado Og Mandino.
O vendedor, que afinal adorava falar e gesticular, começou a me mostrar algumas páginas e delas vi saltar umas pérolas de uma ciência que ensina pessoas a mentalizar, repetir e martelar palavras que são a chave do sucesso.
Pasmem. Entre os capítulos do livro, que lembram parábolas bíblicas, vi frases de efeito que qualquer pessoa ligada em comunicação sabe que só podem ser coisa do capeta. Confiram:
''Ao findar do dia, independente do êxito ou do fracasso, tentarei efetuar mais um negócio.''
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''Assim plantarei a semente do êxito e amanhã ganharei insuperável vantagem sobre aqueles que interrompem o trabalho em determinada hora.''
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''A minha temperatura produzirá uma colheita de bons negócios e engordará minha conta bancária.''
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E enfim:
''Ó Criador de todas as coisas, ajudai-me...Ao leão e à águia ensinas-te a caçar e prosperar com dentes e garras. Ensinai-me a caçar com palavras e prosperar com amor para que eu possa ser um leão entre os homens e uma águia nos negócios.''
O vendedor lia isso revirando os olhinhos e, eu juro, quando ele terminou quase ajoelhei e disse amém. Já ia sacando uma nota de 50 reais quando me lembrei das promessas de não comprar mais nada por impulso e, sabendo que estava diante de ''uma águia dos negócios'', fechei depressa o catálogo e economizei minha grana. Então pensei: ''Ó, Criador, desta vez eu me safei de um filhote do Maior Vendedor do Mundo.'' Minha força de vontade havia funcionado como um antídoto à lábia de Og Mandino e eu já podia voltar a minha rede invicta. A partir disso, passei a olhar com atenção dobrada os títulos destinados a formar grandes vendedores e me deparei com livros chamados:
Poder Sem Limites, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, Propaganda e Persuasão na Alemanha Nazista, Mídia - O Segundo Deus e... Pense e Enriqueça.
Neste ponto, fiquei aturdida ao constatar que Marx, Pound e Joyce pensaram tanto e morreram pobres. Talvez o desfecho fosse diferente se eles tivessem lido O Maior Vendedor do Mundo.
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