Mulher de 40 anos foi encontrada morta, ''assistindo'' à TV, depois de três anos. A notícia, que parece brincadeira ou um chamariz do jornalismo popular, é verdadeira e foi veiculada na semana passada pelas agências internacionais. O fato aconteceu em Londres, cidade fria e cosmopolita, onde milhões de pessoas circulam em total solidão. Eu fico me perguntando como Joyce Vincent pode morrer e passar tanto tempo sem que ninguém percebesse? Onde estavam seus parentes, amigos, vizinhos? Será que ela não tinha um cachorro, um gato para arranhar a porta? O tempo que se passou desde a sua morte só pode ser calculado pelo prazo de validade dos alimentos encontrados na casa, em pacotes ao lado da sua poltrona. Quem suspeitou de alguma coisa errada foram os membros de uma associação que ofereceram o apartamento a Joyce, para onde ela se mudou depois de ter sofrido violência conjugal. Foram eles que alertaram as autoridades sobre o grande número de meses de aluguel atrasado. O fato insólito me põe a pensar sobre o isolamento na vida moderna. Cada um carregando seu próprio peso, sem a possibilidade de compartilhar as alegrias e, muito menos, as angústias.
Ficar sozinho é uma coisa, ser solitário é outra. Eu mesma sou do tipo que preza a reflexão dentro de casa ou da ''casca''. Não tenho paciência para ambientes barulhentos, chatos, repetitivos ou mesmo agressivos. Cansei de bares onde, muitas vezes, as pessoas bebem para soltar os bichos. Cansei das reuniões com as mesmas pessoas dizendo as mesmas coisas. E já senti tédio em festas, com gente equilibrando copos e egos. Mas tenho amigos para a intimidade, aqueles cuja afinidade fazem da nossa convivência uma ação sem esforço. Acho que a amizade, assim como o amor, não pode ser um exercício de resistência, em que as concessões são maiores que o prazer, o esforço maior do que a vontade. Como diz uma amiga ''certos relacionamentos nos dão a idéia de estar sobre uma bicicleta ergométrica, dando 500 pedaladas sem sair do lugar.'' Então, às vezes, ficar só é muito bom. Mas isso está longe da solidão compulsória, da vida robótica dos seres isolados nas salas de TV ou em frente ao computador com suas telas frias, sem esboçar nenhuma ''contrapartida'' humana. A vida tem que pulsar em nosso corpo, em nosso cérebro, em nossos espíritos. Assim não seremos mortos-vivos, mas deixaremos um rastro de vivificação na nossa criação diária, sem a qual somos seres inanimados. E criação pode significar escrever um texto, plantar flores, pintar o muro, fazer pão. O que não podemos é nos tornar indiferentes à vida e morrer dessa indiferença ''zapeando'' o mundo com gestos mecânicos.
Em outro caso recente, um cidadão morreu no metrô de Nova York e ficou rodando entre as estações por mais de 24 horas. Ninguém que sentou ao seu lado percebeu que o homem estava quieto demais e sem respirar. Esta indiferença, marca da vida urbana, é a mesma que nos faz tropeçar em moradores de rua sem notar que o ''obstáculo'' é um ser humano. Éramos felizes e não sabíamos. Porque felizes são as tribos que celebram cada acontecimento, incluindo coisas tão íntimas como a primeira menstruação de uma mulher ou a primeira caçada de um homem. Perdemos o sentido tribal e comunitário das relações humanas. Mac Luhan estava certo quando previu que o mundo seria uma ''aldeia global'' conectada por meios eletrônicos. Só não previu que um certo deslumbre com os meios sofisticados de comunicação a distância, paradoxalmente, fragmentaria as relações muito próximas. Hoje nos comunicamos com os astronautas, mas passamos pelo vizinho sem dizer bom dia! O mundo está precisando de ressurreição.
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