O horário de verão mexe com a gente. Hoje, uma semana depois dos ponteiros terem dado aquele pequeno pulo, nossos relógios internos, mais acostumados à nova rotina, já não provocam os atrasos e as afobações dos primeiros dias. Mas me fazem pensar o quanto uma hora a mais ou a menos interfere no nosso cotidiano e humor.
  Confesso que não sou do tipo que adora madrugar. Tampouco sou boêmia a ponto de só dormir quando a lua já subiu como um balão. Mas de manhã, dentro do novo horário, abro primeiro um olho, depois o outro, vejo os ponteiros, e por minutos fecho os dois olhos novamente. Sim, adoro a sensação de que é tudo mentirinha e que posso continuar meus sonhos de uma noite de verão. Mas que nada. Nenhum personagem de Shakespeare vem falar nos meus ouvidos. O que aparece é uma agenda grande, onde tem que caber os meus horários e os das crianças. Isso significa adiantar o café, a tarefa dos meninos, os textos que serão engolidos pelo jornal com a voracidade de um faminto, apressar o almoço, apressar a saída de casa e, enfim mergulhar no trabalho, sempre de olho no relógio, senhor dos que desenvolvem atividades sob os desígnios de dois ponteiros fatídicos.
  Para tudo tem hora nesta vida. E, nos meus devaneios, penso nos tempos em que os humanos eram movidos por outras lógicas. Sim, porque não deixava de ser uma outra lógica sair da caverna quando o sol despontava, disparar atrás das caças, voltar com o almoço garantido, dedicar-se à coleta, a catar os piolhos das crianças e depois dormir o sono dos justos até que outro dia, sem relógio, indicasse o momento de começar de novo, mas sem stress, sem trânsito, sem hora de reunião. No fundo, acho que a isso se deve a expressão ‘‘o paraíso perdido’’.
  O homem a tudo se adapta e, no horário de verão, os animais nos acompanham sem compreender direito porque dentro de casa, de repente, começa mais cedo o burburinho. Meu amigo Carlos Eduardo Lourenço Jorge, crítico de cinema dos bons, me fez rir esta semana contando o que a inversão do horário provoca em sua rotina doméstica: o papagaio também começa a falar mais cedo, movido, talvez, pelas atividades matutinas dos donos da casa. Mas fecha o bico mais tarde, porque enquanto há luz o bicho não se aquieta. Enfim, o falatório do louro dura mais tempo, sem contar que o gato fica, no mínimo, esquisito. Para nosso amigo crítico, também não deixa de ser estranho começar uma sessão de cinema às 20 horas, com o dia claro, levando os espectadores a acreditar que voltaram ao tempo das matinês.
  Observando o movimento das pessoas esta semana, refleti sobre o que muda com este pequeno pulo dos ponteiros. Uma vantagem é que aquilo que se perde de manhã, com uma hora a menos de sono, ganha-se no happy hour. Ai, ai, ai...Como a cidade fica com cara de verão no fim do dia. Nos campos alugados e nas várzeas, times de futebol aparecem com o sol ainda alto. Os homens lembram um bando de meninos recuperando as bolas como na época em que a saudável vadiagem tomava boa parte do dia. Ali, pelas 18 horas, que na verdade são 17, os molecões já estão a postos. Uniformes improvisados, meias vermelhas ‘‘combinando’’ com camisas verdes, bola nos pés, um sorriso no rosto, um palavrão disparado quando perdem o lance e aquele sonho de ser Cacá com o sol ainda a pino.
  Nos botecos o movimento também entra no ritmo de verão. Não que o happy hour em horário normal não seja significativo. Beber cerveja e jogar conversa fora são uma espécie de celebração nacional em qualquer tempo e até debaixo de chuva. Mas a sensação de sair mais cedo do trabalho provoca uma animação acima da média. Não à toa, o País ganha um ar de férias coletivas.
  Para mim, sinceramente, pouca coisa muda. A não ser aquele olhar espichado para o despertador de manhã. Na verdade, tanto gosto de dias quanto de noites compridas. Em fase de esperança, gosto de ficar bem acordada, com os dois olhos pregados na vida. Nas fases em que a Jupiara me pega, prefiro as noites longas, bem quietinha na minha cama, dormindo mais para pensar menos. E antes que me perguntem, Jupiara é o nome caboclo que uma amiga dá para coisa ruim, depressão. Afugenta-se com alegria de viver, descanso, horas a mais de sono, mas benzimento também vale. E ai, ai, ai...que Deus nos livre da Jupiara. Porque, afinal, é verão.

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