Eu tenho amigos poetas, vários amigos poetas. Alguns fazem versos luxuosos, inspirações esculpidas em pedras, desígnios de marfim. A sofisticação de Pound e a magia de Rimbaud reunidas, a poção antológica dos tempos.
Outros cantam na praça como bem-te-vis, vêem os poemas como a dose necessária para cumprir a trégua em tempos difíceis. Hoje mesmo encontrei um deles, me apareceu com uma flor que amei, tão pequena e delicada que só olhos especiais a veriam num jardim público que ninguém enxerga. Só olhos de poeta para encontrar flor tão minúscula e perfeita como um bibelô lilás.
Sei que dentro dos meus amigos poetas as inquietudes sangram, às vezes gotejam em sílabas silenciosas que arranjam esconderijos nas gavetas. Tenho uma pilha de amigos assim, todos engavetados e líricos, a poesia infiltrada no pó. Ou o pó sobre a poesia. Não importa. Sei apenas que guardam durante anos, talvez séculos, aquilo que suas almas sussurram em instantes rápidos.
A poesia é assim, escapa num instante se não a capturamos. Agora mesmo, vi um verso sair pela janela, na sala onde dou vazão aos pensamentos mais loucos. Tenho grandes amigos poetas. Alguns têm um punhal de prata com o qual provocam emoções desdobráveis. Elas viram palavras, nem sempre rimas, mas têm uma cadência, uma liberdade que lembram a chuva no telhado. Pensando nisso, e sem ter o que fazer na minha última tempestade, andei tão triste, tão triste, que fui espiar a gaveta dos meus amigos poetas. Saltou de dentro dela a saudade, uma criatura que ronda todos os meus sonhos e os meus planos, às vezes por anos, às vezes por séculos. Entre meus amigos poetas, um deles conseguiu sintetizar as formas estranhas da saudade e seus conteúdos obscuros.
Cansada assim, de tanta saudade inútil, capturei um instante do amigo Marcos Losnak, autor do poema mais perfeito que conheço sobre a falta que algumas coisas nos fazem. Usufruo dele como quem delira com marrom glacê. Não mata a fome, mas sossega a ânsia de compreender o incompreensível.

Tudo se torna tão escuro
Quando teu sorriso bate a porta e sai pelo portão
Saudade é o óleo que sustenta a chama da lamparina
Saudade é o inseto que se atira em direção à chama
Quando a noite silencia o horizonte.
Saudade é a carcaça do besouro devorado pelas formigas
Quando a manhã ilumina as dobras da noite.
A única pessoa que te entende nesta cidade é o meu jardim.

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