Um pedaço da minha história se mistura a uma pequena descoberta que acabo de fazer no orkut, a comunidade virtual onde todos os gostos se encontram. Estava pesquisando espaços dedicados a escritores e encontrei dois sobre João Antônio, o cara que escreveu 'Malagueta, Perus e Bacanaço', 'Malhação de Judas' e 'Abraçado ao Meu Rancor', entre outros livros. As comunidades dedicadas a ele foram criadas por pessoas muito jovens, o que me enche de alegria porque encontro vida inteligente. Como se vê, nem tudo é Big Brother, Brasil.
Na sequência desta descoberta, mais uma notícia boa: acaba de sair o livro 'Paixão de João Antônio' - escrito por Mylton Severiano e publicado pela editora Casa Amarela. O livro resgata, entre outras coisas, 30 anos de correspondência entre os dois autores. Severiano, que é editor da revista Brasil - Almanaque de Cultura, distribuída nos vôos da TAM - deve vir a Londrina em abril para fazer o lançamento.
João Antonio morreu em 1996 e foi um grande contista urbano, especializado em tipos perdidos como malandros e prostitutas com os quais convivia e descreveu como ninguém, radiografando seus corpos e as suas almas. A descoberta de seu nome no orkut me arremessou para um pedaço da minha vida, no começo dos anos 90, quando tive a oportunidade de fazer uma entrevista com este brasileiro autêntico que só podia se chamar João Antônio. Esta lembrança, ainda hoje, é uma das melhores que tenho.
João Antônio viveu em Londrina nos anos 70. Veio trabalhar no jornal Panorama que reuniu, na época, nomes importantes do jornalismo brasileiro, a fina flor da intelectualidade debruçada sobre máquinas Olivetti. Essas pessoas, acuadas pela censura do regime militar nos grandes centros, vieram bater aqui na nossa praia. Maravilha. Londrina convertida em São Paulo, convertida no Rio através de caras geniais que enfiaram os pés na terra vermelha e aqui deixaram suas marcas. Entre eles, João Antônio com quem me encontrei 15 anos depois, em 1990, quando ele voltou à cidade.
Foi assim: eu era repórter de cultura da Folha de Londrina e o editor era Nelson Capucho, um cara danado para essas coisas de literatura, faro fino em cima de livros e autores. Foi a pedido dele, que também acompanhou a entrevista, que eu e o fotógrafo Milton Dória batemos a pé a Vila Casoni numa tarde de sábado. A vila foi o local para onde João Antônio fez questão de voltar quando veio a Londrina. Na sua memória, para aqueles lados a cidade entornava os porres mais eficientes e confraternizava nos bordéis que pegavam fogo um pouco mais adiante, na Vila Matos, onde funcionava o célebre restaurante do Toninho. Foi para lá que voltamos com ele, numa tarde calorenta de dezembro, para mostrar que a cidade, ao longo de 15 anos, tinha se transformado tanto que estava irreconhecível. Ele, que procurava ''o restaurante do Toninho, abaixo da linha férrea'', encontrou no lugar um ''disco-voador'', como tratei na reportagem a nova rodoviária da cidade que tem projeto de Oscar Niemeyer. Nossa conversa foi sobre as cidades, a urbanidade e a imprescindível literatura.
Às vezes lamento que, com a internet, as pessoas guardem cada vez menos papéis. Eu, que continuo louquinha por páginas de jornais, tenho um arquivo pessoal onde não faltam papéis, uma festa para meus sentidos de traça e jornalista que lê trechos de entrevistas me sentindo cara a cara, outra vez, com pessoas fantásticas.
Na entrevista, olhem só as definições de João Antônio para as cidades que ele tratava como personagens:
Rio de Janeiro - ''O Rio é uma mulher. Depois de criar o mundo, Deus foi tomado por um acesso de beleza, foi orgíaco e criou o Rio de Janeiro.''
São Paulo - ''É outro tipo de amor. É uma relação de amor e ódio, é o meu passado. E não existe nada para doer tanto quanto o passado.''
Londrina - Para falar da cidade, ele usou palavras como desconcertante e mirabolante e, enfim, completou: ''Londrina é uma mulher implacável, não admite rivais.''
Além deste papo bom de doer, naquela tarde de sábado tive um momento sagrado. Nos botecos da Vila Casoni, bebemos cerveja e jogamos sinuca com João Antônio. Eu, patética no jogo. Ele, um adversário digno de enfrentar Carne Frita que, aliás, é personagem de um de seus contos. João Antônio me venceu na sinuca, é claro. E eu disse: ''Caramba, esta bola era difícil.'' Ele, depois de fazer um cálculo imaginário para explicar como matou a bola 15, olhou para mim e arrematou: ''Questão de geometria. Como você sabe, minha querida, sinuca é o xadrez do malandro.''
Lembro da lição de sinuca com a entrevista debaixo dos meus olhos e um ''cineminha'' de fotos que flagraram várias expressões do escritor. Não dá pra não sentir saudade daquela tarde calorenta em que voltei de porre para casa. Não poderia ser diferente. Se pudesse voltar no tempo, não faria só um passeio com aquele João. Talvez propusesse uma fuga pras bandas esquisitas da fronteira com o Paraguai. Com ele, o melhor de tudo estava sempre na contramão. Pessoas assim fazem falta. O mundo anda muito careta.

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