PONTO FINAL - Reflexão sobre a vida e a morte
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de outubro de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
Sempre soube que a dor é pessoal e intransferível. Sempre acreditei também que a dor silenciosa tem muita dignidade. Mas também não me cabe julgar a expressão do sofrimento. Uns precisam gritar, outros se recolher.
À medida em que amadurecemos, a dor é temperada como o aço das espadas. Ficamos mais firmes, embora doendo ainda, mas transpassados pela compreensão de que assim é a vida, feita de nascimentos, cortes e cicatrizes. Mas alguns cortes são tão profundos e íntimos que o sangue só estanca através de dias e noites costurados pelo milagre do tempo. Por isso, nunca duvidei que o tempo é um deus.
Quem sofre uma perda, pode refugiar-se nas religiões. Às vezes acho que a crença estigmatizada é um unguento criado para o que o homem não enlouqueça. Então, quando sofremos a perda de um pessoa querida temos dois caminhos: acreditar que a vida é uma pulsação condicionada a uma circunstância que cessa quando a força que a dirige é paralisada e, assim, desaparecemos sem deixar rastros. Ou acreditar que temos, além da matéria, uma porção de energia que só se revela em outro mundo, uma ''alma atômica'' que aqui não enxergamos, mas brilha em universos paralelos através de lentes macroscópicas. Mas por que ou para quê existimos ainda é mistério. Como pergunta o poeta: ''Existirmos, a que será que se destina?''
Nenhuma filosofia, definitivamente, dá conta do porquê da existência, então buscamos caminhos pessoais para nos refugiar da própria existência e da dor. As religiões teriam menos expressão sem o sofrimento. Se vivêssemos naquele paraíso de águas puras para que serviriam os deuses? Então nos expulsaram do paraíso e fizeram crer aos puros que viviam em pecado.
Não sou adepta de religiões, embora creia numa energia que mantém o universo organizado em leis de causa e efeito. Quanto mais os homens inventam verdades, mais distantes ficamos da nossa natureza íntima e selvagem. E talvez mais distantes dos nossos próprios corações porque a fé passa a ser uma manifestação de algum poder, de uma hierarquia - divina e humana - e condicionada a ritos. Os animais quando se ferem, se recolhem. O homem civilizado às vezes faz um espetáculo, a ponto do sofrimento equiparar-se a um enredo de ficção.
Da minha parte, acredito cada vez mais na beleza e faço da poesia minha religião. Posso ver Deus neste momento aqui da janela, olhando flores que se desprendem e voam na primavera que professa minha fé nas estações, uma após outra, com a natureza desdobrando-se em ciclos sem nenhum alarde. As flores ao vento são, neste instante, minha única verdade. Devíamos viver e morrer como as borboletas.
Se é para acreditar em alguma força, prefiro a essência primitiva e selvagem dos que vêem na chuva e na ventania a face de Deus. A natureza é o templo mais antigo do homem, muito antes da obrigatoriedade dos ritos onde todos se benzem e se ''salvam''. Creio mesmo que na força das tempestades existe um deus que nos dá noção da grandeza do caos de onde viemos e para onde retornamos, depois de sermos trespassados pela condição existencial que nos torna humanos, demasiadamente humanos, na perplexidade do prazer e da dor. Assim, quando se aproxima o Dia de Finados, recolho minhas perdas como tatuagens, sinais de que vivo a condição humana, e as consagro ao deus do tempo. Também medito à minha maneira e torço para que meus entes queridos estejam em algum lugar do futuro. Enquanto isso, minha própria vida se esvai e flutua com a simplicidade das folhas, se desprendendo com uma singeleza impressionante, sem culpas e sem juízos. Amém.
pontofinal@folhadelondrina


