Eu já havia pensado nisso há algum tempo, observando que o marketing dá excessivo valor ao fato de alguns medicamentos proporcionarem ereção sob qualquer circunstância, como se isto fosse o único fator importante na relação amorosa. Há duas semanas encontrei na Folha de S. Paulo a opinião de um especialista em comportamento humano, o sociólogo (sim, sociólogo e não sexólogo) americano John Gagnon, que faz uma análise interessante do assunto. Ele diz que as drogas como o Viagra reforçam uma espécie de ''privatização do sexo, pois tornam o indivíduo muito mais importante do que a relação entre duas pessoas.'' Isso significa que limitar o sexo ao fato de o homem ter ou não ter ereção empobrece os relacionamentos, porque prazer exige muito mais do que isso.
Vou logo avisando: a discussão não é para pessoas imaturas, que não compreendem as relações muito além do estímulo fisiológico. O sexo é também estímulo emocional, psicológico e até espiritual, se compreendermos que o orgasmo abre as portas da percepção, nos atirando para outro mundo, para outra dimensão.
Se prazer dependesse só de ereção, os atores das fitas pornôs viveriam dando pulinhos de alegria nos sets de filmagens. Mas não é bem assim, atos mecânicos não garantem satisfação. Aliás, não existe nada mais triste do que ver aqueles homenzarrões transando como se fossem um daqueles personagens da TV que participam do quadro ''Se vira nos 30'', em que as pessoas têm que mostrar tudo o que sabem em... 30 segundos. Tudo parece forçado demais. Sem olhar, sem envolvimento, sem carícias que fazem a temperatura das boas relações eróticas. Nos filmes pornôs, é tudo muito esquisito porque eles seguem o script. E sexo com script é um desastre. Não adianta ''ensaiar''. Na hora H, vale a criatividade, o jogo, o inesperado, porque isso sim suscita emoções novas. E a emoção leva a estímulos que abrem a porta das relações quentes.
Se os laboratórios farmacêuticos podem lucrar fabricando remédios para doenças que eles mesmos criam como demonstram pesquisas recentes feitas nos EUA para avaliar o uso indiscriminado de medicamentos homens e mulheres do século 21 não podem analisar seus problemas pela metade, utilizando uma ótica também mecânica. Sejamos espertos. A pílula ajuda, mas a ereção compulsória não basta para fazer da vida sexual uma maravilha. Para ter um relacionamento prazeroso é preciso que os parceiros tenham afinidades que incluam uma química compatível, o entendimento na cama, a sedução mútua, a descoberta do que cada um gosta. Carícias, toques, olhares, cheiros, beijos são caminhos que levam ao ''jardim das delícias'', dizem os felizes no amor. A penetração em si é uma parte disso tudo. Não adianta um brutamontes ter a maior ereção do mundo se ele não souber tocar uma mulher. Isso é o que se chama de relação fragmentada ou individualizada, como afirma o especialista norte-americano.
Digo isso porque estão nos vendendo as ''pílulas da felicidade''. Pílulas para dormir, pílulas para emagrecer, pílulas para rejuvenescer, pílulas que nos fazem acreditar que o desejo nasce em embalagens. E nós aceitamos esta ''verdade'' como os tolos que compraram no passado o elixir da longa vida, sem questionar o homem da carrocinha.
Sexo é muito mais do que ereção e orgasmo. Isto pode ser um bom final, mas não é tudo. Aliás, tem gente que só sabe mesmo o final, rapidinho e malfeito. Lembrem-se disso antes de supervalorizar o prazer vendido em caixinhas. Pílulas não bastam para fazer alguém decolar emocionalmente, quanto mais voar. E, até onde eu sei, erotismo não se vende em farmácia. Em todo caso, não sou homem e, se eu estiver errada, me avisem.
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