PONTO FINAL - Orkut sociedade anônima
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de abril de 2006
Célia Musilli<br>Editora da Folha2 
Você percebe alguma coisa errada nestes versos? Claro, trata-se de uma paródia marota do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade. Adaptada aos novos tempos e à realidade do cyberespaço, a poesia pode ganhar uma versão bem-humorada e lembrar direitinho o pânico que bateu em muita gente, na semana passada, quando as pessoas que participam do Orkut descobriram que uma das regras mais delicadas do sistema havia mudado, sem aviso prévio aos navegantes. Do dia pra noite, o site - que permitia visitas anônimas às páginas de todos os integrantes da rede - escancarou as portas e tornou visível o nome de quem visitava quem. Ex-namoradas, atuais maridos, pais disfarçados, amantes desprevenidos, antigos sócios e eternos rivais foram literalmente flagrados nas ''salas'' de seus objetos de amor ou de ódio cometendo uma gafe que já está sendo chamada de... ''o mico que abalou a rede.''
Depois da ''hora do pânico'', as pessoas foram se habituando à nova ferramenta que pode ser ativada ou desativada, conforme o gosto do freguês. Em resumo, quem quiser continua no anonimato, espionando os outros. Ou, se preferir, sai do anonimato e dá o ar da graça na casa do vizinho e diz um ''oi'' com aquele sorrisinho amarelo de quem quer se aproximar, ainda que não tenha sido convidado.
Da minha parte, digo e repito que a nova ferramenta do Orkut é uma coisa muito boa, um avanço, um algo a mais no reino da saudável transparência. Mas discordo da maneira como fizeram a troca, sem avisar os usuários que, quando aceitaram participar do site, selaram um acordo virtual que passou a valer nadinha, no momento em que os ''donos'' da brincadeira resolveram...brincar de outra coisa. É como estar numa festa e de repente alguém ordenar: ''Agora fica todo mundo nu!'' Vocês ficam ou saem fora? No caso do Orkut, ninguém teve opção. E apareceram barrigas, nádegas, curvas, derrapagens, estrias.
Não acho ético que qualquer meio de comunicação - seja uma emissora de TV, um jornal ou um site -, disponha da vida das pessoas impondo regras a partir da visão meramente tecnológica e mercadológica, decidindo: ''Temos um novo recurso, testem nas cobaias.'' As relações humanas, incluindo suas virtudes e fraquezas, também precisam ser consideradas. E se os desavisados, ou até mesmo os falsos moralistas, acharam ''bem feito'' o que aconteceu no Orkut, devem se lembrar que estímulo à espionagem partir do próprio site que ofereceu a oportunidade de todos fazerem visitas anônimas.
Não é de hoje que estamos construindo uma sociedade de ''voyeurs'', termo que se aplica à espionagem prazerosa do outro e que tanto pode derivar para a xeretice - para conferir as derrotas ou as vitórias de cada um - ou, simplesmente, restringir-se à contemplação de algo que desejamos por algum motivo.
A literatura e o cinema estão cheios de exemplos de ''voyeurismo.'' Alfred Hitchcock em Janela Indiscreta coloca o ator James Stewart no papel do fotógrafo L.B.Jeffries que sofre um acidente, fica imobilizado e passa a condicionar sua vida ao prazer de espiar seus vizinhos. Até que começa a investigar um crime envolvendo a bela Lisa, vivida por Grace Kelly, atriz fetiche de Hollywood que só poderia encarnar o objeto de desejo no filme do mestre do suspense.
Em tempos bem menos glamurosos, a mídia televisiva faz reality shows, cujo exemplo mais flagrante de estímulo ao ''voyeurismo'' é o Big Brother Brasil. A ''graça'' do programa é deixar o telespectador espiar o que se passa dentro da casa onde se concentram candidatos submetidos a provas. Nem é preciso dizer que o programa alcança maiores índices de audiência quando mostra cenas de casais transando, amigos traindo, personagens fofocando, enfim, pessoas agindo daquele jeito que ninguém mostra na sala de visitas, mas se permite no fundinho do quintal. O ''escondidinho'' de ontem é o espetáculo de hoje. Privacidade é um artigo de luxo num mercado movido a pontos na escalada de audiência ou em número de acessos num site.
Que ninguém se engane, o Orkut não mudou seu sistema porque é um ''bom moço'', mudou porque interessava dar uma resposta à evidência de que é um jogo que nos torna muito vulneráveis. Para responder às acusações de que é um meio que pode facilitar atos que a sociedade condena - como a pedofilia, a prostituição, o racismo ou até a difamação de pessoas inocentes - escancarou ''as portas da verdade''. Mas o fez de maneira estapafúrdia porque, de repente, todo mundo ficou nu. De repente, tudo ficou transparente. De repente, a verdade veio à tona. Mas só por um momento, senhores. Hoje no Orkut, opta pelo anonimato quem quer. Está tudo igual novamente, porque o recurso da ''verdade'' é reversível, com apenas um clique podemos de novo espionar toda a comunidade. Então, o jogo da verdade era só de mentirinha. Por isso eu digo, a mídia pode ser a mãe da camuflagem, se isso agrada à indisfarçável sociedade anônima dos camaleões. Passado o susto e refeito o pacto, vamos voltar à brincadeira. Aliás, você já viu quem passou pelo seu Orkut hoje?
[email protected]


