PONTO FINAL - O poder da palavra
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de março de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha 2 
Gosto tanto das palavras que fiz delas um modo de ganhar a vida. Poderia ser astrônoma, arquiteta, bailarina, vendedora de bijuterias. Mas desde pequena achava linda aquela passagem bíblica que diz: ''E o verbo se fez...'' É verdade que no começo não compreendia direito o que o verbo fazia. Mas a sonoridade da frase é tão cativante que quebrei a cabeça até entender que grande passo a humanidade deu quando inventou o verbo. Também gostava de imaginar Deus no Jardim do Éden usando a palavra para criar isso e aquilo. E as flores desabrochavam, os pássaros criavam asas, os frutos amadureciam até que, finalmente, o bicho homem deu o ar da sua graça e o universo nunca mais foi o mesmo. Tudo pelo poder da palavra.
Eu, que agora ganho a vida escrevendo, percebo o enorme poder de persuasão do texto. Os leitores quase sempre acreditam que ''se está escrito é verdade...'' Por conta disso, já levei puxões de orelha por causa das crônicas que, às vezes, são pura ficção. As pessoas encaram tudo como realidade, levando a ferro e fogo cada ponto e cada vírgula, mesmo quando a intenção é apenas contar uma história de forma bem-humorada. Sempre digo, é preciso discernir a natureza do que sai publicado. Crônica é diferente do texto informativo onde temos a obrigação da fidelidade aos fatos. Mas para não repetir aqui as conversas que os jornalistas mantém através das gerações, vou tratar a palavra sob uma outra ótica, só para demonstrar seu potencial de persuasão.
Dia desses, um amigo que adora sair com ''acompanhantes'' me contou uma história engraçada dos serviços de sexo por telefone, aqueles que começam com um alô para terminar na cama. A interlocutora boa de papo, dona de uma voz cálida e sussurrante, quase causou um trauma no homem recém-divorciado quando apareceu com cabelos alaranjados e o dedo médio do pé maior que o dedão, defeito insuportável para meu amigo que vive babando por pezinhos de gueixa. Ri muito quando ele me contou na base da confiança - e me fazendo jurar que não iria espalhar por aí - que a ''deusa'' boa de conversa era uma ''onça parda'' ao vivo. E deu o que fazer para ele dispensar a moça, enquanto olhava seus dedões e pensava em pisar neles com o coturno.
Com o advento da internet, a armadilha das palavras se amplia. Seu poder de sedução atravessa o cyberespaço e derrete corações se a figura, do outro lado, tiver a manha de dizer as coisas certas na hora certa. Mas vocês sabem tão bem quanto eu que muitos casos de amor ''textuais'' desabam no primeiro encontro. As mulheres, por exemplo, sofrem demais quando descobrem no lugar do príncipe um sapo duro de engolir e que não tem nada a ver com aquele interlocutor maneiro. Pode acontecer dele ser um exemplar de mastodonte que adora assoar o nariz fazendo barulho ou só consegue transar de meias.
Claro que para não acabar de vez com as esperanças de quem vive de palavras, devo dizer que também conheço casos perfeitamente harmoniosos, que colocam a realidade no mesmo patamar do sonho. Então, moças, não percam a esperança de encontrar um parceiro compatível através dos textos e dos meios eletrônicos. Isso pode acontecer e vocês só terão que agradecer aos céus se ele for especial, tiver um olhar penetrante e, mesmo não sendo lindo como um artista de TV, for dono de um charme inegável, sabendo combinar palavras e atitudes daquela maneira que nos faz pensar: ''Um cara assim, eu não encontraria nem se encomendasse pesquisa ao Ibope!''
Quando os perfis se encaixam, a sedução é tanta que as palavras não precisam ser ditas, apenas sussurradas. Neste caso, ainda que na hora H você não entenda bulhufas do que ele ou ela estão dizendo, relaxe e aproveite os gemidos, miados, grunhidos que também são linguagens muito interessantes.
A palavra é um mistério que entra por todos os sentidos, e disso sabia o Criador bastante misterioso quando decretou o início do universo. Na verdade, não sei bem em que língua Deus disse tudo aquilo, mas de uma coisa tenho certeza: Ele sabia do que estava falando.
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