Conheço um jardineiro que, aos 79 anos, carrega sozinho as suas ferramentas. Chega de manhãzinha, quase junto com o sol, cuidando para não fazer barulho que acorde o dono da casa. Antes combina com as pessoas que o contratam quantas mudas deve ter cada canteiro, faz uma seleção de cores, de plantas que florescem em diferentes épocas do ano, de modo que os seus jardins são sempre vivos.
Costumo prestar atenção no que dizem os mais velhos. Há sempre uma sabedoria na conversa espichada para temas que, normalmente, os jovens não dominam. Pois Seu Adolfo, o jardineiro, me disse que até hoje planta margaridas nas casas onde moram casais apaixonados ou nas residências onde há moças em idade de se casar. Nesses tempos de amores virtuais, ele tem certeza que ainda existe quem arranque as pétalas das flores, arriscando um bem-me-quer, para conhecer o futuro através do que parece coisa de romance do século 19. Hoje as mulheres não guardam mais violetas entre as páginas dos livros e ganham arranjos de floricultura no lugar dos maços de flores que, no tempo do Seu Adolfo, os namorados colhiam nos jardins. Hoje tudo é mais sofisticado. Mas o velho jardineiro aposta no romantismo e nas suas mãos as plantas ganham novos valores. Fico pensando que gente como ele deve ter dado origem a essas enciclopédias em que o jacinto significa esperança, a orquídea, desejo e assim por diante.
As pessoas quase não têm mais tempo para se dedicar a plantas, por isso ignoram seus significados. Mas não deixo de achar graça nas revelações de Seu Adolfo que acredita piamente na sorte ou no azar que pode estar escondido num buquê. Entre suas histórias, tem a de duas irmãs invejosas que ''secavam'' as plantas uma da outra com um simples olhar. Na sua conta, Matilde ''secou'' seis avencas de Lúcia que, na contrapartida, chegou a ''secar'' uma pimenteira estrategicamente colocada na porta de entrada da casa para espantar mau-olhado. Segundo ele, a inveja é um dos sentimentos mais resistentes do mundo e indica espada de São Jorge e arruda para manter as vidas protegidas das maldades.
Eu sempre digo para Seu Adolfo que se as suas teorias tivessem fundamento, as casas de ervas não iriam à falência. Mas ele responde à minha incredulidade contando que os raizeiros não costumam falir, apenas mudam de endereço, e me convence citando duas ou três casas do ramo que continuam na ativa há mais de 20 anos. Eu que gosto de conversar com o velho e saber dos seus folclores, acabo concordando que, aqui em Londrina, na mesma rua onde havia um restaurante, um bazar e duas lojas de tecidos, apenas a casa de ervas sobreviveu ao tempo. É verdade que passo lá às vezes e vejo às moscas dúzias de sementes, centenas de folhas secas, uma infinidade de galhos que parecem sempre os mesmos debaixo da poeira. Mas Seu Adolfo me garante que a casa tem clientela cativa e que a salsaparrilha que eu vi ontem não é mesma de cinco anos atrás.
Eu rio das histórias e, mais do que discutir as crenças, acho interessante debater com Seu Adolfo esta questão das ervas do bem e do mal. ''E do lírio branco o que o senhor me diz?'' ''Ele traz lágrimas'', responde o velho. Me ensinando ainda a nunca plantar cravos de defunto, bromélias selvagens e flores-de-cera no meu jardim, todas fadadas a tristeza e aos prejuízos. Em compensação, estimula o cultivo de margaridas e rosas brancas porque são ''do bem'' e jura de pés juntos que rosas vermelhas atraem mesmo o amor, revelando que ajudou a ''desencalhar'' uma solteira e casou de novo uma viúva depois que plantou três mudas desta espécie debaixo da janela dos seus quartos.
Para problemas financeiros ele ainda aconselha dinheiro-em-penca, uma planta que os capitalistas apelidaram de ''dólar'' levando para seus escritórios vasos e vasos da espécie que traz dinheiro em conta e ajuda a aumentar a clientela. Pelo sim, pelo não, deixo em pé as roseirinhas lá de casa e pedi ao Seu Adolfo três vasos de ''dólar'' já que minhas expectativas com a megasena foram frustradas. Se minha vida der uma virada, eu dou a muda pra vocês. Lembro sempre que a esperança é a última que morre e aquelas sábias palavras voltam aos meus ouvidos: ''Eis o mistério da fé.'' Enquanto Seu Adolfo replica: ''Confie no poder das flores e dos jardins.'' Eu, como filha da geração ''flower power'', balanço a cabeça e acredito sim.

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