É tempo de Copa e o Brasil pára. A esperança vira uma bola rolando num campo e a fé nacional se fortalece através de um quadrado mágico. Quando a Seleção joga, o país acorda com ''cara'' de feriado, as empresas fecham as portas mais cedo, as escolas não funcionam ou organizam o civismo em torno de aparelhos de TV.
Não, eu não sou um ET. Também estou torcendo. Cedo à alegria dos filhos que colecionam figurinhas dos ídolos de chuteiras, repetindo há meses a ladainha terna: 'Mãe, vamos à banca de revistas?''. Contribuo com seu entusiamo e, agora em frente à TV, vamos todos comer pipoca, com o coração batendo mais forte enquanto as imagens coordenadas abrem a possibilidade de um gol. ''Ufa! Não deu agora, filho. Mas o próximo não escapa.'' Mas no intervalo do êxtase sempre sinalizo que a força de um país não pode rolar feito bola.
Tenho tantos sonhos para esta potência adormecida, quase todos irrealizados por falta de vontade política e alienação do povo que só concentra energia nos estádios. Mas não custa alinhavá-los com a paciência das mulheres que costuram planos a perder de vista.
Eu queria a desfavelização do Brasil ou um projeto de refavela, com a população transformando a sua vida pobre em algo mais digno e humano. Alguns exemplos, como o da Rocinha, mostram que a partir da organização popular é possível melhorar as moradias, formar associações de artesanato e moda para aumentar a renda. E outros exemplos assim existem pelo Brasil, mas numa proporção bem pequena em relação aos problemas crônicos.
Eu sonho com um sistema de saúde pública que funcione. Com menos doentes nas filas, mais prevenção, mais agilidade e menos corrupção nas redes que se transformaram em máfias onde até ambulâncias são objetos de licitações fraudulentas.
No meu delírio, eu sonho em ver o Brasil atravessado por ferrovias e, de preferência, por trens-bala, aquelas máquinas futuristas que os japoneses adotaram e que são movidas por computadores. Um sistema assim, interligando regiões para escoar a produção nacional, traria um benefício econômico ímpar, além de servir de transporte menos poluente e bem mais eficiente num país continental.
Eu sonho com um país em que nenhum governo tivesse que apelar ou usufruir de mensalões para fazer funcionar uma máquina decadente chamada Congresso Nacional. E também gostaria muito que o povo não aceitasse mensalinhos para eleger este ou aquele político de sorriso arreganhado em tempo de eleição. Olho para seus dentes e, sinceramente, acho que vão nos devorar, fazendo das urnas seus QGs de predadores.
Eu sonho com infância assistida, juventude criativa, velhice amparada. Eu sonho com menos violência e mais trabalho. Eu sonho com um civismo nacional que extrapole o calendário dos jogos.
Ando meio desencantada, é verdade. E agora, quando todos os sonhos se escondem sob o tapete verde de um campo europeu, um gol de Ronaldinho vai valer bem mais do que qualquer projeto para a massa vestida com camisas verde-amarelas. Podíamos vestir a camisa por tanta coisa!
E não quero ser desmancha-prazeres, mas em meio à euforia, ruim mesmo é aguentar narradores esportivos repetindo sandices na TV. Alguns são capazes de dizer coisas impensáveis como ''a curva do circuito de Mônaco é uma reta'', subvertendo noções da geometria como bem assinalou Zé Simão, com seu incomparável humor.
E quando assisto à TV e vejo Galvão Bueno, Hebe Carmargo, Faustão e Silvio Santos formando o ''quadrado mágico'' da alienação geral, tenho vontade de ir para o Tibet entoar um mantra... Ommmmmm! Para ver se mudo a sintonia. Mas que nada, o único mantra que funciona no Brasil é Gooollll! E aí sim, o povo se harmoniza com a miséria. Sob o tapete verde escondemos sonhos em dois tempos. Mas o Brasil continua sendo o país de um só tempo: o do adiado futuro.
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