PONTO FINAL - O brasileiro ri do quê?
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de maio de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
Esta questão me intriga, embora não tenha nada contra quem faz da vida um bom prato de humor. Mesmo em momentos críticos, o brasileiro prefere a piada à ira. E eu fico pensando que este deve ser um traço da raça, inscrito no nosso DNA pela mistura inusitada de culturas. O fato é que somos o país do riso frouxo e mostramos os dentes em franca alegria mesmo quando deveríamos estar chorando de raiva. Esta semana, por exemplo, temos motivos para não achar nenhuma graça em questões nacionais que mexem com nosso bolso, nossa tolerância e nossa inteligência. Mas seguimos...rindo.
Abro os jornais, leio os sites, ligo a TV. Dou de cara com um noticiário azedo e grave, mas que o brasileiro, numa alquimia impensável, transforma em piada.
Concordo que a greve de fome de Garotinho, batizada de reality show, é mesmo risível. Na semana em que ele queria roubar a cena, perdeu feio para outras questões seríssimas como a crise da Petrobras na Bolívia. De mártir que queria ser, Garotinho passou à condição de vítima do circo que ele mesmo armou. E eu também ri, ri muito, quando vi na internet apoios incondicionais ao ato de Garotinho querendo mesmo que ele...MORRA! É o caso do Kibe Loco (www.kibeloco.blogspot.com) que traz uma ilustração do garoto esquálido, de olhos fundos, com a inscrição ''Eu apóio a greve de fome do Garotinho... até o fim!''
Depois dessa, se eu fosse o candidato à presidência da república do riso, pedia logo uma picanha com farofa e saia da condição ridícula em que se enfiou. Não tem jeito Garotinho, nem rezando ou pondo pra funcionar o plano de escrever o livro ''Meu Amor Pelo Brasil'' - conforme anunciou - você convence o povo a te levar a sério. Então coma logo garoto, fique forte, se precisar tome Biotônico Fontoura para abrir o apetite, mas largue esta teimosia exibicionista e peça uma cerveja, pizza de calabreza e sobremesa de requeijão com goiabada, bem brasileira, já que por aqui não cola esta onda estrangeira de greve de fome, homem-bomba ou qualquer outro ato de extrema dramaticidade.
Para não falar demais do Garotinho, que merece umas boas chineladas, lembro também das opiniões encontradas em fóruns da imprensa sobre a questão Brasil/ Bolívia e a invasão da Petrobras pelo exército a mando de Evo Morales, na minha opinião o índio mais raçudo da América. Sim, porque Evo fez na Bolívia o que nossos caciques não fazem na terra deles e muito menos os brancos. Porque se fossemos uma república de Evos, já teríamos há muito tempo impedido os gringos de saquear nosso minério, nossas florestas, enfim todo riqueza do paraíso, para mim, perdido para sempre.
Voltando aos fóruns, onde o brasileiro exerce livremente seu direito de rir de tudo, reproduzo opiniões encontradas no site Terra sobre a crise com nosso país vizinho:
''Vamos peitar Evo Morales plantando cocaína pra competir com a Bolívia no mercado internacional.'' (J.C., de São Paulo)
Ou ainda:
''Vamos cheirar todo gás da Bolívia.'' (H.S., de Goiás)
E assim, de piada em piada, o Brasil amanhece igual. O mesmo país sem juízo, de riso fácil, de povo cordial como bem assinalou Gilberto Freyre em sua análise monumental sobre a raça mais bem-humorada do planeta. Somos mesmo cordiais com os estrangeiros e carrascos do nosso próprio povo. Rimos de tudo e acho até que haveria graça, se não convivessemos com uma ressaca brava de violência que é a indigesta resposta social de uma nação em carne viva, onde seguimos ao pé da letra a fórmula ''rir é o melhor remédio.''
Talvez nosso humor disfarce uma grande tristeza, uma imensa melancolia em ver um país tão rico submerso na miséria dos saques históricos, da incompetência administrativa - velha ferida da república -, e da falta de perspectivas que nos faz rir para não chorar feito criança que perdeu pai e mãe. Para mim, no momento, o problema mais grave do Brasil é se sentir órfão de esperança. E, neste caso, agimos como meninos de rua, chutando a lata e andando em bando pra cruzar a brincadeira com a desgraça. Somos mesmo o país do DNA do riso frouxo e da piada pronta, como diz Zé Simão.
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