PONTO FINAL - O amor e a arte de colar caquinhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de outubro de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
Uma amiga me fala da rejeição. Ela diz que quando um homem explica que vai se afastar porque ''tem medo de se envolver'', na verdade ele está sendo delicado para dar o fora. Ela enfatiza que seria pior se ele dissesse: ''Não gosto de você'', porque doeria mais. Isso me põe a pensar sobre os foras que levamos na vida e como reagimos a eles.
O estado de paixão é um delírio que nos põem cegos, completamente à mercê do outro, com o coração entregue, as vísceras expostas. Todo o corpo vibra na expectativa daquele amor que nos visita o pensamento de dia e os sonhos de noite. E quando não temos por perto a pessoa a quem amamos, os sonhos são um prazer que nos fazem demorar um pouco mais na cama, depois que abrimos os olhos. Desde que, é claro, não tenhamos levado o fora enquanto dormimos.
Eu costumo me dar bem nos sonhos. Invariavelmente dou passagem aos desejos de vivenciar o afeto e há encontros que só me deixam feliz. Mas na vida real, no corpo a corpo, claro que nem sempre me dei bem. Como a maioria das pessoas já dei e levei foras. E nas vezes em que levei, passei noites chorando, perturbada pelas lembranças dos bons momentos que costumam infernizar a memória dos que fazem das parcerias amorosas uma das coisas mais importantes da vida. Sim, porque eu não compreendo a vida sem um amor. Sou dependente daquela adrenalina desencadeada pela efervescência da paixão. E, claro, quando os castelos se desmancham, a decepção vem a galope. Para isso, ainda não descobri nenhum antídoto eficiente.
Quem sente demais invariavelmente é feliz demais ou sofre demais. Mas acho que a maturidade vai dando outros contornos às situações de perda. Com o tempo, aprende-se que ninguém é insubstituível. Embora na vida tenhamos pessoas especiais que não esquecemos nem depois do fim. A essas pessoas aprendi a dar outro tipo de atenção, um outro espaço. Passado o baque dos rompimentos, dedico a elas uma amizade sincera. Sim, porque passei da fase de fazer dos ex-amores, inimigos. Acho que o afastamento radical de quem se amou só se justifica por um tempo suficiente para a ''cura''. Depois, é bom compreender que as pessoas a quem amamos são, no mínimo, pessoas com quem temos alguma afinidade. Então, não ver nunca mais, romper como se estivéssemos vivendo um luto, é demasiadamente doloroso. Romper não é morrer. É saber que vivemos um ciclo importante com alguém e que este ciclo, como todos, pode ter fim.
Hoje tenho amizade com pessoas a quem amei. Todas têm qualidades e defeitos. E percebo, depois da fase intempestiva da paixão, que alguma coisa sempre sobra de um grande romance: boas lembranças, uma experiência essencial para o crescimento, uma lição sobre erros e acertos.
Na maturidade percebo que as mulheres que se sentem rejeitadas quando perdem um amor, e fazem disso um trauma nunca superado, sofrem mais e perdem também vitalidade, oportunidades, só ganham rugas, estão sempre de mau humor. Reagir mal a uma perda é natural, por um certo tempo. Mas arrastar a perda como uma herança maldita envenena a vida. É mais saudável reagir desabafando sim, enquanto for necessário, mas depois é preciso dar o pulo do gato para não cair no constrangimento de se tornar uma pessoa lamuriosa, daquelas que afugentam os amigos porque se transformam num poço de mágoas. Quase sempre falando mal do grande amor.
Conheço pessoas que não se desligam do namorado de 20 anos atrás, do ex-marido que saiu de casa e refez sua vida amorosa. Tenho consciência de que são situações traumáticas. Eu mesma não sou do tipo que esquece fácil e de amor verdadeiro posso contar nos dedos apenas dois ou três. Inesquecíveis sim. Mas não quis transformá-los em fantasmas. Prefiro ser amiga dos meus ex-amores. Fechar portas e janelas para não vê-los é o caminho mais curto para transformá-los em mitos. Tudo o que se mitifica, dura. Para quem não consegue se livrar dos traumas, as terapias podem ser de grande ajuda.
Já os tipos mais ''desencanados'' conseguem sozinhos sacudir a poeira e dar a volta por cima. Ou por baixo. Ou saltar de lado como um gato em busca da sobrevivência. Amor dói, mas não mata, se a gente compreender que as perdas fazem parte da vida. E nem sempre perdemos tudo. No mínimo, sobra a grande experiência de ter vivido um grande amor.
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