PONTO FINAL - Meus tipos inesquecíveis
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de abril de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha 2 
Quando eu era criança, gostava de ler a seção Meus Tipos Inesquecíveis da revista ''Seleções'', que meu pai colecionava pacientemente. Esta revista ainda está por aí e, dias desses, me lembrei da velha seção que trazia textos bem comportados no melhor estilo ''american way of life'' narrando a historinha de vizinhos sempre bons, justos e verdadeiros. A partir dessas histórias espichei meus olhos para os tipos que já cruzaram a minha vida. Mas que, em vez de colecionar virtudes, colecionam defeitos ou traços de personalidade que me põem a pensar se este mundo, afinal, não é mesmo um hospício.
Entre os Meus Tipos Inesquecíveis, existem alguns que decerto não renderiam perfis para a ''Seleções''. Eles, no mínimo, são esquisitos ou fazem parte do time dos anti-heróis.
Vejam só:
A dona da mortalha Eu mal tinha começado a falar e já sabia que na vizinhança havia uma imigrante italiana, dona de um temperamento explosivo, que sabia lavar e passar roupas como ninguém. Ela atendia toda a elite da cidade e dizem que no seu tanque algum produto secreto fazia com que toda peça lavada saísse tinindo de limpeza. Assim ela ganhava a vida, cantarolando e fazendo a alegria de quem adorava pregas e nervuras bem passadas, não fosse por um detalhe: a velha, mantendo o costume de seus antepassados, já tinha costurado, e mantinha prontinha no guarda-roupa, a mortalha com que haveria de ser enterrada. Eu, só de imaginar alguém costurando uma mortalha para ser guardada entre pedras de naftalina, tinha calafrios que me impediam de entrar na casa daquela senhora. Para mim, um tipo inesquecível, com seu nariz comprido, corpo miúdo e que, nos dias de festas, cantava tarantelas lembrando seu país de origem. Uma pessoa feliz, não fosse pelo detalhe da mortalha que lhe dava, sem dúvida, uma certa intimidade com a morte que eu dispenso em vida. Hoje, pensando bem, acho que ela cairia como uma luva num filme de Fellini.
O dinossauro Nos anos 70, os acordes do rock progressivo transformaram Carlinhos num tipo único. Este meu amigo vivia pra lá de Marrakesch, conhecia decor o repertório de Emerson, Lake & Palmer e mantinha a tiracolo o LP ''The Dark Side of the Moon'', ouvindo Pink Floyd quantas vezes pudesse nas festas em que o resto da moçada queria mesmo era dançar e, só bem mais tarde, cair na letargia. O tempo passa e a gente pensa que as coisas mudam. Que nada. Dia desses encontrei meu amigo e até pensei que estava tendo alucinações: ele não esquece a trilha de Pink Floyd, que já tem em CD e DVD. Também continua usando as mesmas gírias e os cabelos compridos, agora brancos, o transformaram numa caricatura de duende. Olhando para ele, tive que me beliscar algumas vezes para ter certeza de que eu não tinha tomado chá de lírios. Mas que nada, Carlinhos é real e se armarmos um túnel do tempo é quase certo que vamos encontrá-lo acampado até hoje em Woodstock.
O sedutor Ele era daqueles que não podem ver rabo-de-saia. Mulher recém-chegada à cidade ou contratada como nova funcionária na mesma empresa em que ele trabalhava era sua ''vítima'' em potencial. Sem mais nem menos, o César ia chegando, recendendo a Vétiver ou qualquer perfume que alguma desavisada tivesse lhe dado de presente. Sim, porque ele colecionava perfumes e namoradas. O galã não era nem gordo nem magro, devia ter pelo menos 1,80m e olhos esverdeados que ele escondia com óculos escuros para fazer charme. Para completar, andava num carro esporte e costumava adoçar as mulheres com poesias ou fitinhas gravadas que ele sacava no balcão do bar. Tudo seria perfeito na sua vidinha romântica não fosse por um desfecho inesperado: casou com a mulher mais feia que cruzou sua vida. Quem os vê juntos fica pensando se, afinal, ela não é sua sogra ou sua mãe. Eu procuro não fazer julgamentos. Mas lá no cantinho da minha alma fico achando que alguma ex lhe rogou uma praga e o castigo veio a galope, na pele de um tribufu que virou seu par para a eternidade. Não é mesmo, Don Juan?
O mal-humorado Ele era quase perfeito. Não era feio, tinha uma inteligência viva e se mantinha bem informado sobre vários assuntos. O que pesava era seu espírito resmungão que achava defeito em tudo e estava sempre ''coberto de razão.'' Nas conversas, não ouvia o argumento dos outros e transformava o papo numa discussão sem fim, ele era contra tudo e todos. Quem convivia com ele, acabava gostando do sujeito porque a coexistência vai moldando defeitos e, às vezes, cria-se um amálgama de relacionamentos em que um tolera o outro. Assim, seu mau humor foi virando folclore. Mas eu ainda me divirto quando lembro que, após uma discussão daquelas no trabalho, ele avisou que estava saindo em férias. Imediatamente, um daqueles tipos que perdem o amigo mas não perdem a piada, sugeriu que em vez do Ruy passar férias na praia, passasse numa escola de adestramento para... cachorros bravos. Claro que ele rosnou. E pra piorar um engraçadinho gritou: ''Pega! Pega!''
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