Acordei com a síndrome do Zé Simão. Pingaram colírio alucinógeno em mim. Porque meninos, eu vi! Vi um leão de plástico que parecia de verdade, mas não rugia; vi um travesti com a cinturinha do Mick Jagger; vi uma dona ofuscante coberta de plumas e paetês. Já estava pensando em sonho, pesadelo, viagem astral, universo paralelo quando caiu minha ficha: É domingo de Carnaval! E no país a peruagem está solta. Quer dizer, pra soltar a franga nem precisa ter festa de Momo. Outro dia mesmo uma dama de dourado encarava uma festa 'comme il faut', ajustada numa calça brilhante e piscando os olhinhos repuxados feito um semáforo.
Filhas de Carmen Miranda, as brasileiras herdaram o gosto por balangandãs. Em qualquer dia do ano, não há mulher sem brinco, pulseira, colar, anéis e... o pior, tudo ao mesmo tempo. Fazer o quê? Eu penso naquelas francesas chiquérrimas com seus Valentinos básicos, sem muitos enfeites, mistura de Catherine Deneuve e Juliette Binoche, caras que parecem lavadas, discrição e beleza que põem de quatro as peruas tropicais. Mas estamos no país do Carnaval e vamos voltar à avenida.
Eu pergunto onde esse povo da Bahia arranja energia para pular durante uma semana atrás dos trios elétricos. Filhos e filhas de Ghandi pacificando o país com alegria soberba. Herdeiros da capoeira, tambores e timbaladas. Vertigem de Vergé que fotografou inteirinha a nação do candomblé, dentro e fora do Carnaval.
Eu penso em Pernambuco de onde vem o frevo, tradição heróica e histórica, sabiam? Dizem que na Guerra do Paraguai o general Solano López comandava suas tropas tendo à frente bandas marciais que acirravam os ânimos belicosos. Um general brasileiro viu aquilo e pensou: ''Precisamos encarar esta bagunça, em pé de igualdade, para não perder a guerra.'' Convocou os soldados índios com seus tambores e assim... nasceu o frevo. Hoje, expressão de Recife e Olinda, reino soberbo das sombrinhas. Alegria multifacetada porque vemos os foliões ora aqui, ora acolá, de tanto que pulam.
Mas vamos desembarcar na ilha da fantasia: Rio 40 graus, domingo de Carnaval!
Escolas de samba ensaiam o ano inteiro (dá-lhe Mangueira!), criam carros alegóricos que só de olhar me esfriam por dentro, de tanta beleza e apreensão. Vejo destaques sambando como se fossem acrobatas na montanha russa. Um anjo da guarda muito forte deve proteger os carnavalescos que, em nome da alegria explosiva, se expõem a muitos metros acima do chão e quase não se machucam. Acidente é coisa rara. Eles têm 'know how' de Carnaval, tipo exportação. Vejo também as evoluções das escolas e seus sambistas encantados. Giram o corpo a 360 graus, desafiando a lei gravidade. Onde a mulata arranjou aquele passo? E de onde vem a nobreza das comissões de frente? Não há o que dizer nem explicar. E quando tento, surge uma bateria de arrepiar os pêlos. Batucada nota 10. Indescritível. Só vendo e ouvindo. Precisão matemática convertida em batidas de surdos e tamborins. Que país é este, meu Deus?
Há quem nos culpe por esquecer nestes dias as agruras do Mensalão, do caixa 2, do caixa 3, corrupção empilhada desde que inventaram a República. Eu me divirto vendo foliões com as máscaras dos caras-de-pau. Lá vem o Bush, lá vem o Lula sambando. FHC ainda está por aí? Todos já para a avenida! Esta é a ordem do dia, canalhas!
Então esqueço a raiva e me deleito com as mesuras autênticas da porta-bandeira e do mestre-sala. Figurinos da Corte Portuguesa no embalo da batucada africana. Somos o país das plumas e das penas. Pensando bem, nossas damas não têm culpa se nasceram peruas. Glugluglu. Freud explica porque elas soltam a franga. Antropofagia cultural. Exagero visual. Banquete de Carnaval.
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