Estava sem inspiração para escrever até começar a ouvir o grupo cubano Orishas, que significa exatamente orixás. Como sabem, os cubanos também têm os pés e as mãos na África, como nós. Quem gosta da geração do Buena Vista Social Club - eterna pelo talento e eternizada por Win Wenders no cinema - também vai gostar da nova música cubana, tão forte e sensual quanto a de Ibrahim Ferrer e Celia Cruz.
Estava aqui no tédio, até que coloquei o CD do Orishas e espontaneamente meus pés começaram a se mexer, meus quadris a rebolar, percebi em um segundo (Salve Compay!) que já estava enfeitiçada pelo ritmo.
Eles têm aquele suingue irresistível do Caribe, temperado com um axé que permanece vivo na ilha congelada no tempo. Um congelamento ''muito aquecido'', diga-se de passagem. Sei que milhares saem de lá para viver na América e outros países, mas a cultura cubana é tão forte - pelo menos quando se trata de música, sensualidade e charuto - que eles carregam a marca do seu vigor para onde vão.
Orishas tem momentos profundamente caribenhos, associados ao rap, um misto de protesto, inconformismo e paixão. O grupo franco-cubano é radicado em Paris e conhecido internacionalmente. Os músicos Ruzzo, Roldan e Yotuel sofreram pressões quando foram se apresentar na ilha - é, eles não concordam com a política de Fidel - mas o show ficou lotado assim mesmo e foi um sucesso.
Como eu ia dizendo, quando estiverem com tédio, ouçam música cubana. Seus pés vão se mexer, seus quadris vão ficar mais flexíveis e, quando se derem conta, estarão dançando salsa ou rumba. Então, sonhem com um lugar de vento quente, hotéis e bares decadentes, ruas carimbadas com a marca da revolução nos muros e nos outdoors. Vou ainda mais longe: viajem num cadilaque caindo aos pedaços - o meu tem ''rabo de peixe'', é bicolor, azul turquesa e branco. Então, estacionem seu carro num bar de decoração ultrapassada, cheio de dançarinos atrevidos. Mas deixo um aviso às mulheres: os homens, quando dançam e curtem a parceira, se agacham para beijar seus pés. Não sintam vergonha das reverências. Mas fiquem espertas meninas: se eles chamarem vocês de ''mi vida'', não pensem que estão apaixonados. Os homens cubanos chamam todas as mulheres de ''mi vida''. Não economizam sedução. Em todo caso, aproveitem e cedam à ''tocha cubana'' que é a síntese da festa na ilha que nunca vi. Empobrecida, sob embargo, sem bens de consumo, sem liberdade, é verdade, mas carregada de um carisma inexplicável.
Quem já foi, não se esquece do povo moreno, com um sorrisão bonito - sim, porque há médicos e dentistas competentes em Cuba. Lembram-se quando eles ofereceram ajuda a Bush, depois do desastre do furacão Katrina e o caubói, enfurecido com todas as tempestades, recusou? Pois é, mas vamos voltar à Havana.
O povo vestido com cores fortes como manda a tradição caribenha, enfiado em roupas que parecem ter saído de um figurino dos anos 50. Tudo muito demodê, muito nostálgico, muito forte e marcante. Uma raça de ''guerrilleros'' tomada pela arte e congelada no tempo, como se uma entidade, um orixá, mantivesse a força em meio à insolvência.
Como diz Caetano: ''Mamãe, eu quero ir a Cuba, quero ver a vida lá....'' Com ou sem Fidel. E tirar minhas próprias conclusões.
Quem já foi diz que os remédios são difíceis, a comida racionada, as habitações precárias, mas ninguém morre de fome. Há solidariedade entre os que ficaram, como há entre os que partiram o que significa que este ''pueblo es muy fuerte''. O resto é o que salta aos olhos de cada um, a interpretação sob a ótica das ideologias e ponto final. Cuba, me aguarde. Orishas me guardem!
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