O Segredo de Brokeback Mountain, filme de Ang Lee que está em cartaz no Brasil, arranca confissões insuspeitáveis. Os homens não conseguem disfarçar o incômodo que lhes causa a subversão do western, gênero machista por natureza. Eu me divirto com os comentários dos homens que escrevem sobre cinema. Percebo críticas cheias de dedos, porque alguns não querem parecer politicamente incorretos, mas outros não se aguentam e desabafam quase chorando: ''Como puderam fazer isso com a gente?''
O conto em que se baseia o filme é de uma mulher: Annie Proulx, publicado pela primeira vez em 1997, na revista The New Yorker. Só mesmo uma mulher poderia dar conta deste recado de amor entre dois caubóis com vidas heterossexuais - sim, eles são casados, têm família - que mantêm em segredo um romance que começou em outra época.
No início achei o filme arrastado. Até acontecer o que se tornará um ''segredo'', a gente fica esperando, esperando. E pergunta: ''Será agora, será depois?'' E, quando rola, é cena rápida, pano rápido. A primeira transa entre os caubóis parece um contato desajeitado entre duas cabras, ou melhor...entre dois cabras. Mas o filme tem momentos poéticos, paisagens estupendas e trata de uma bela relação amorosa. E aí tanto faz se a relação é hetero ou homossexual. Para mim, sendo terna e verdadeira, está valendo. Não resta dúvida de que o filme incomoda a platéia masculina. Eles se remexem nas poltronas, fazem piadas, gritam ''O amor é belo!'', quando as cenas esquentam.
Eu confesso que ri, ri muito, lendo também artigos masculinos sobre assunto tão perturbador. Um amigo escreveu no blog: ''Eu sou do tempo em que filme de caubói era coisa de macho. Mas os tempos são outros, o chinês que fez o boiola-western tá papando tudo quanto é prêmio e se bobear leva o Oscar...'' Aí, um leitor explica para ele: ''É a insustentável leveza de ser caubói. Parece que no filme não há touros bandidos, só ovelhinhas branquinhas que fazem mééé...'' Alguém pode dizer: ''Mas isso é coisa de brasileiro machista''. Eu argumento: ''Que nada, é simplesmente coisa de homem.'' E sei do que estou falando. Olhem o que Larry David - um dos criadores da série ''Curb Your Enthusiasm'', da HBO - escreveu sobre o filme no The New York Times: ''Alguém precisa dizer isso e por que não eu? Não assisti O Segredo de Brokeback Mountain e não tenho a menor intenção de fazê-lo. Mesmo que os caubóis me laçassem e arrastassem ao cinema, ainda assim me esforçaria para manter os olhos fechados e tapar as orelhas.''
Eu rolo de rir porque ''homem que é homem'' tem verdadeira paura de qualquer respingo gay na sua vida. Conheço caras que se suspeitam que um bar é gay, não passam nem na porta, desviam o caminho; se o filho diz que gosta de dança, ameaçam cortar seu pé e se um amigo tiver um filho gay, ah! não se contêm, balançam a cabeça e tratam o caso como se fosse de morte e dizem com a voz mais sentida do mundo:''Coitado do fulano!'' Porque não há coisa que doa mais num ''homem que é homem'' do que uma possibilidade gay afrontando suas pacatas vidas.
Mulher é mais libertária. Se o filho é gay dá apoio porque o ama do mesmo jeito e sabe que o mundo já vai lhe cobrar um preço alto, tão alto, que o melhor caminho ainda é compreender e acolher sua opção em casa e com carinho. Mas ''homem que é homem'' se sente ameaçado por qualquer coisa que lembre a tribo do arco-íris. Tem uns que, ainda hoje, se recusam a usar camisa cor-de-rosa, abominam perfume e, uma vez, um velho parente me confessou que achava ''desodorante coisa de boiola''. Eu ri tanto que cheguei a passar mal.
Mas voltando ao filme e às incríveis manobras de Hollywood - porque esta sim é poderooosa - é quase certo que o western transviado leve o Oscar este ano. E no Brasil, preparem-se: no Carnaval vai ter travesti gritando muuuu, dupla gay encenando o boi-bumbá com touro mecânico e muitas, muitas botinhas rosa-choque no sambódromo. Acham que a tribo vai perder esta chance? Nem mooorta! E eu? Bem, eu vou de Suzana tocando meu bandolim, muito, muito longe do Wyoming e do Alabama.
Célia Musilli passa a escrever aos domingos neste espaço.

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