Esta semana São Paulo parou. Parou de susto. As imagens das ruas vazias, sem gente e sem trânsito, lembram enredos de ficção, remakes de filmes sobre cidades fantasmas. Na mídia, o vazio causado pela violência refletiu-se em comentários perplexos, furiosos, estarrecidos, inconformados e até deprimidos. Como se o país, em uníssono, despertasse à força da sua indiferença. Na Internet, vozes clamaram por justiça, lei, reclusão, inclusão, pena de morte, penitência em vida. Nos jornais, articulistas febris recorreram a todas as análises políticas, sociológicas e psicológicas ao ver o sistema prisional pelo avesso e liderado não por autoridades, mas pelo Primeiro Comando da Capital PCC que instaurou a guerrilha do lado de dentro e de fora das grades.
Num primeiro momento, veio o choro dos familiares dos policiais mortos pelo PCC. No desenrolar da tristeza, lembrei que no mês passado, lendo a revista Caros Amigos, me surpreendi com a carta de um policial militar cujo teor há muito tempo não me surpreende em outros órgãos da imprensa nacional.
Ele se declarava um brasileiro de classe média baixa, odiado pelos bandidos e escorraçado pela sociedade que discrimina e olha de viés quem é da polícia. Mas este cidadão, tão mal visto, diz que mora igualzinho aos pobres de qualquer cidade grande, numa casa simples, andando de ônibus, expondo a vida num trabalho de alto risco.
Num segundo momento, vejo um pai inconformado com a perda do filho na guerrilha de São Paulo. O entregador de pizzas Ricardo Vendranelli, 16 anos, morreu alvejado por tiros que a família suspeita tenham sido desfechados por policiais à paisana que, na hora do pânico ou da raiva, matam também por ''equívoco'', repetindo uma história que deu o que falar quando Jean Charles de Menezes foi morto pela polícia inglesa ao ser confundido com um terrorista. E o País que entrou em comoção pelo que ocorreu em Londres, aqui não se comove pela vizinhança. Parece que o insulto tem que vir de fora para mexer com nossos nervos.
O que pesa de fato no Brasil é a indiferença com que tratamos nossas próprias mazelas. É a cegueira intencional com as diferenças sociais que , paradoxalmente, também colocam lado a lado cidadãos que não se entendem, embora padeçam do mesmo mal, que é a falta de moradia, de empregos dignos, de saúde em dia, de vida urbana com um mínimo de qualidade. E se de um lado há conglomerados carentes, raivosos e empobrecidos, de outro a elite se isola em feudos e só desperta do seu longo sono confortável dizendo ais e ohs! quando a água bate no peito. Ou a lâmina no pescoço.
Estamos vivendo no Brasil uma situação-limite. A dor das famílias que perdem o filho bandido, o filho policial ou o filho entregador de pizza não é diferente enquanto dor humana. A ótica difere conforme a nossa ''facção''. Somos o território da Daslu e da Daspu. Somos o país dos batedores de carteira e dos criminosos de colarinho branco. E se a lei não igualar os desmandos nossa crise moral continuará a corromper elite e subúrbio. E corrupção generalizada gera omissão generalizada. Nossa grande dicotomia é ser um país rico que vive na mais absoluta miséria. Que não é apenas miséria material, mas espiritual, porque autoridades com um rasgo de luz e poder de decisão não podem permitir que crianças de 8 anos continuem a manejar drogas na favela, tampouco vendê-las nos semáforos para os filhos das classes abastadas. Está aí para qualquer um ver. E não custa lembrar: Liberem a droga, senhores, se querem mesmo acabar com o tráfico.
No Brasil vivemos uma situação-limite. E na semana que passou, com as ações do PCC, a indigestão social foi tanta que não permite divagações ou intervenções longas, sob a pena do paciente morrer na mesa de cirurgia.
Como lucidamente colocou o sociólogo Luiz Werneck Vianna na Folha de S.Paulo da última terça-feira, cabe ao Estado reagir com lei. Na hora em que facções criminosas deflagram a violência para demonstrar poder e conseguem esvaziar uma metrópole em pânico, a saída mais viável e imediata é a reclusão de bandidos de alta periculosidade em presídios de alta segurança.
As políticas públicas compensatórias devem ter continuidade para estancar o sangue nas origens da ferida. Mas políticas de inclusão social fazem sentido num Estado de Direito, são frágeis como argumento em tempo de guerra declarada. Como disse uma vez Percival de Souza, um dos maiores cronistas policiais do País, chega um momento em que não dá mais para ''sacrificar as ovelhas e proteger os lobos''. Acho esta parábola de uma sensatez comovente ainda que leve a decisões tão tristes.

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