As pessoas que vivem como eu, no mundo da lua, de vez em quando são chamadas à Terra. As dificuldades surgem do nada. Um dia você acorda e tem um problema a resolver e bem rápido. Pois aconteceu comigo no fim das férias. Meu idílio com a preguiça foi interrompido bruscamente por uma situação que exigia ação, bem no momento em que tudo que eu queria era ficar mais um pouco com a cabeça leve como um travesseiro de penas. Mas acho que existem por aí uns gênios do mal dispostos a encrencar as férias. Então, de uma hora para outra, você é chamado de volta à realidade que, como todos sabem, não é exatamente lugar para um sonhador ou simplesmente um tipo que não quer complicação.
No mundo de hoje a burocracia impera. Tudo exige dinheiro, organização, documentação e uma dose assim ó de paciência. Para encontrar esta última virtude, tenho às vezes que me fingir de morta ou fazer de conta que o ''imbroglio'' não está acontecendo comigo. Então viro uma personagem nas filas. Sou Dona Santa, uma mulher tranquila, aquela que finge que não sabe que a sua senha é a de número 208 e que, portanto, tem trinta pessoas antes dela para serem atendidas. Isso mesmo, trinta. Sabem lá o que é isso? Sim, eu sei que vocês sabem. Nesta hora sempre me arrependo de não ter levado para a fila um bom romance ou, pelo menos, uma agulha de crochê. Se eu sei fazer crochê? Claro que não. Mas nas filas a gente tem tempo para aprender de tudo. Fazer samba, praticar línguas, contar piada, ler A Divina Comédia, lixar as unhas, xingar os parentes dos burocratas, nem que seja assim, bem baixinho, com o palavrão saindo pelo cantinho da boca que é para não ofender a vizinhança. Porque se a espera é longa, o pavio é curto. E falam muito em acabar com a burocracia, mas ela é uma praga. Tão resistente quanto as formigas, o governo Lula ou a ferrugem da soja.
Numa das minhas experiências com as filas, aprendi um trecho da ópera ''Carmem'' com um maestro que ia pagar o IPTU. Quase nos internaram. É, porque tem gente que não gosta de ópera. Em fila então, nem se fala. Alguns preferem o silêncio compenetrado, com os olhos pregados no painel eletrônico para saber se ainda vão ficar muito tempo com cara de bobo...ou de morto. Mas no episódio da ópera alguns até aplaudiram. E a prima-dona era eu.
Afinal, ninguém tem culpa se as tarefas mais simples exigem senha, além de toda documentação que deve permanecer na bolsa porque a todo momento você é obrigado a sacar o RG, o CPF, a carteira de motorista, a certidão de nascimento, um comprovante de residência e tudo mais destinado a provar que você existe, é um cidadão de fato e não uma ilusão de ótica. Um dia não resisti e lasquei: ''Pode me beliscar seu gerente.'' Enfim, ai daqueles que esquecem qualquer papelzinho em casa e têm que voltar no dia seguinte. Porque se até mesmo Dona Santa tivesse que voltar para pegar outra senha, acho que teria uma síncope, um chilique, daria piti, porque como vocês sabem paciência tem limite e mulher ''chilica'' assim como o gato mia, o cão late, as serpentes sibilam... nossa! E eu, mesmo sendo assim aparentemente calminha, quando rodo a baiana sou capaz de bancar um entrevero com o Papa e vou logo dizendo: ''O que é que há? Passei dos 40 e Sua Santidade vai exigir certidão de batismo outra vez?''
Acho que porque ainda estava em clima de férias, o aborrecimento não chegou a ser problema. Claro que teria sido melhor passar o dia tomando sol de barriga para cima, porque de barriga para baixo fico na TPM, tomando Atroveran. Mas graças a compreensão, paciência e eficiência de Dona Santa, me saí bem. Se a outra personagem baixasse em mim no lugar dela, os burocratas iam ver o que é bom. A ''outra'' explode como dinamite, não mede palavras e já meteu na cadeia um ladrão reincidente numa tentativa de assalto. Acham que estou brincando? Pois não estou não, mas essa história é parte do meu folclore e não combina nem com o fim das férias. Nos últimos tempos, a Dona Santa tem vencido a burocracia sem que seja preciso voar nenhuma pena. 1 a 0 para ela. E não é que a fluoxetina deixa os modernos calminhos?
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