PONTO FINAL - Férias de cabeça para baixo
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de julho de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha 2 
Existe um período do ano a que chamamos férias. Palavra com a qual nossos ancestrais nem sonhavam, quando viviam pendurados nas árvores, preocupados em comer uma fruta ou abater um inseto. Depois começamos a andar sobre duas ''patas'' e, sucessivamente, fomos arrumando tarefas. Não paramos nunca mais. Se no início caçávamos para comer, hoje ''caçamos'' para comprar pizza, roupa, DVD, carro, apartamento, pagar IPTU. Eta, vidinha besta! Por isso, quando meu aviso de férias chega em julho, começo a delirar com a possibilidade de passar um mês dependurada nas árvores, de preferência de cabeça para baixo, para enxergar o mundo sob novos ângulos. Já comecei a me exercitar. Faço aquilo que os psicólogos chamam de condicionamento. Abro os olhos de manhã e tento não pensar em jornal e tampouco em horários. Aliás, ontem mesmo aboli o relógio da minha cabeceira. Acordo e tento me distrair com um fio de luz que entra pela janela ainda fechada. Fico tão absorta que vem um dos filhos e pergunta: ''Tá passando mal, mãe?'' Eles estranham me ver parada. Pensam que se trata de alguma febre ou então que resolvi fazer meu décimo curso de meditação sem avisar ninguém. Acho que sentem falta de me ver pulando da cama e pondo todo mundo pra correr. Porque nosso dia começa com muita atividade. Como macacos evoluídos, tomamos café, banho, escovamos os dentes e...vupt, uma hora depois estou entretida com algum texto que deverá ser enviado para o Marco Jacobsen ilustrar com aquele e-mail básico: ''Esta é a coluna de domingo, capriche no desenho. Gosto muito do seu traço. Um abraço.''
Quanto aos filhos, não têm a menor chance de se comportarem como ''macaquinhos'' atrevidos. Acordam ouvindo a ladainha: ''Já fizeram a tarefa? Limparam os ouvidos? Os livros estão em ordem?'' Só deixo de repetir tudo isso quando perco a voz numa crise de amigdalite, como a que me pegou esta semana. Aí, enfim, me calo e sonho com as férias.
Repasso mentalmente os lugares onde eu possa ir para ganhar energia, que deverá me abastecer no resto do ano. Não desejo passeios que exijam de mim salto alto nem qualquer compostura. Prefiro jogar meu velho jeans no fundo da mala, um tênis que me acompanha há uns bons quatro anos e que, de tanto caminhar, sabe de cor o caminho das trilhas e das cachoeiras. Sim, é num desses banhos frios que se toma em julho numa queda d'água que o espírito dos meus ancestrais se reanima em mim. Fico tentada a me dependurar nas árvores de cabeça para baixo e roer um pedaço de coco. Procuro abolir as regras de civilização que me causam enxaquecas e baixo astral. Eta, mundinho besta! Não à toa, na sociedade moderna todo mundo tem artrite, sinusite, pressão alta. Queriam o que, depois de descer das árvores para subir em elevador carregando papéis?
Nos meus delírios de liberdade, sonho com o ócio criativo proposto pelo italiano Domenico Di Masi. Imagino uma sociedade feliz como aquela que os gregos tiveram um dia, escrevendo poemas, fazendo teatro, pintando jarros, sonhando com outras odisséias. A Odisséia moderna é muito pobre do ponto de vista mítico. Sem imaginação, sem sereias, sem Ulisses, sem Penélope que podia fazer e desfazer tapetes ao sabor dos dias. Hoje, tudo fazemos para vender e sobreviver.
Sonhando com a liberdade, outro dia me engajei no Partido do Ócio do Brasil. Sabiam que existe? Na verdade, trata-se de uma comunidade do orkut onde alguns refletem sobre a liberdade do ócio criativo. Resta-nos isso. Viver virtualmente um sonho anárquico de um mundo menos produtivo e mais criativo.
E agora, vocês me dão licença porque vou assinar meu aviso de férias. Faço disso um ato quase solene. Queria ter caneta de ouro para colocar meu nome naquele papelzinho. E olha que tenho uma profissão que adoro. Imagino o que não seja assinar o tal papel para aquelas pessoas que cumprem tarefas apenas por obrigação. Estas sim, não têm sonhos. Nenhuma inspiração para se despedir de um relógio-ponto com textos que comemoram a liberdade de um mês de férias, um mês de ócio criativo. Sim, porque estou saindo, mas ainda vou escrever num trecho da estrada. Em agosto eu volto. E conto pra vocês como foram meus dias em algum lugar do Brasil, subindo em árvores e comendo cocos. Nunca pensei que a possibilidade de voltar a ser quase um macaco me fizesse tão feliz.
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