Quando fecho a porta, faço-o com delicadeza, sem ruídos que dêem conta da minha raiva, sem vacilos que dêem conta da minha decepção. Mas por essas coisas da vida que não se explicam, sempre me é dado o momento do desfecho, da notícia súbita, do choque de saber primeiro, da confidência que paira como um segredo que devo despetalar como as flores do mal. Ah! como eu queria ser daqueles tipos que são os últimos a saber. Mas devo transmitir uma confiança celestial e uma segurança diabólica disposta a compreender cada desatino da vida que às vezes passa cortando feito caco de vidro. É sempre assim, meu pulso está no caminho, e o inevitável rompe minhas veias me fazendo balbuciar expressões vazias. ''Mas o médico disse mesmo que você vai morrer?'' ''Seu filho está desaparecido?'' ''O seu noivo casou com outra?'' ''Vocês perderam os pais?'' Não sei porque diabos, as pessoas vêm me contar essas coisas. Devo ter uma imagem plácida, de tipos que não estremecem, não se perturbam e, ainda por cima, dão colo às situações mais tristes. Se soubessem que meu coração dispara, que minhas mãos esfriam, que meus músculos se contraem à espera do pior e fico ali fazendo de conta que compreendi tudinho, toda angústia, toda perda, toda solidão humana.
Sinceramente, às vezes vejo as tragédias cotidianas e penso que a frase ''o inferno é aqui'' é coisa verdadeira. Não temos porque temer no futuro aquele lugar que nos inspira terríveis pesadelos e no qual ouvimos dizer, nas ruas ou no catecismo, que os demônios punem os que não andam direito. Por sinal, acho que os demônios andam dormindo ou muito distraídos - será a Copa? - , porque tenho visto muita barbaridade ficar impune. Sem nenhuma garfada, sem nenhum foguinho de isqueiro. Então, como dá para acreditar que depois, bem depois, o além vai nos preparar um julgamento daqueles, com direito a castigos que passam pelo fogo da consciência? Não, senhores. Não sou materialista, cética nem tampouco descrente. Apenas acredito que a vida já tem um grau natural de angústia que às vezes sentimos como se fossemos cobaias, submetidas a provas que eu não prescreveria nem ao meu pior inimigo. Não compreendo direito porque algumas pessoas nascem com estrela e outras com uma triste sina. Por isso, quando vejo o desespero vindo a galope, na disparada das notícias ruins que quase todos os dias somos obrigados a ''processar'' em letras numa redação de jornal, me lembro da frase ''o inferno é aqui.'' Mas, francamente, estou cansada de ser testemunha. Então, por favor, me contem de vez em quando uma história lírica, em vez de uma história trágica. Soprem um poema em vez do número de mortos, digam que doença ruim tem cura, que mãe não perde filho, que os loucos são bem tratados. Porque se não mudarem as notícias, mudo eu. E da próxima vez, vou dar um jeito de nascer bem escandalosa, como essas criaturas que perdem o senso, como se diz por aí. E quando vierem me dar notícias ruins quero ter uma síncope, um chilique como vi uma vez Dona Joana, que sentia pânico ao menor sinal de chuva e trovão.
Dona Joana sim, era escandalosa e expressiva, daquelas que não guardam nada e põem tudo pra fora. Ela gritava, uivava se fosse preciso, até por isso era poupada de assuntos como morte súbita, parto difícil, amores condenados. Mas esta minha calma, esta minha cara de monja versada em psicologismo, me trazem dissabores que nem conto. Até por isso, saio de fininho, à francesa, sem ruídos, com medo de que me segurem com a proposta fatídica: ''Sabe, preciso te contar uma coisa...'' Querem saber? Não me contem nada, já sei demais para meus quase 50 anos e quero morrer ingênua, cabocla, ignorante e escandalosa como Dona Joana que não suportava nem um tiquinho assim ó dessa minha angústia existencial. E também quero que Sartre se dane porque não vou filosofar, mas ando triste feito uma coruja. Não vou contar aqui nem a metade do que sei. Notícia ruim a gente benze e manda embora. Não passa pra frente. E, de hoje em diante, quero ficar surda quando aparecerem os agourentos e os fofoqueiros de plantão.
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