PONTO FINAL - Enredos de Alice
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de agosto de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha 2 
Ele é uma mistura de Robert Redford e Rudyard Kipling me contando as histórias do Menino Lobo. Talvez ele nem se lembre, mas me falou de Mogli e também me explicou o que faz uma abelha-rainha quando eu nem imaginava como era a vida numa colméia. Tudo isso despertou a curiosidade quase infantil que eu tenho por literatura, biologia, antropologia e outras disciplinas que não aprendi na faculdade. Na minha turma, só havia uns garotos batendo tambores para fazer a revolução e que depois se casaram, se acomodaram e hoje se orgulham de bater um bolão às quintas e aos domingos. Alguns trocaram os filmes 'noir' por Linha de Passe, um programa de TV que eu pensava que era uma atração espírita, com aqueles ''médiuns'' falando sem parar de Dunga, Ronaldo, Ronaldinho e às vezes invocando a ''presença'' do Telê Santana. Para mim, futebol é como política e religião, incompreensível.
Sim, eu sei que as mulheres também dão mancadas ao longo da vida. Às vezes só assistem à novela e cansei de ver moças interessantes se transformarem em megeras que dão blitz em celular, reviram os bolsos do marido e fuçam seus e-mails. Quanto mais inseguras, mais chatas. Ciúme é como pimenta, um pouquinho é bom, exagerado, estraga o prato.
Além disso, tem aquelas que chamam o parceiro de ''chuchu'', ''pai'' e quase matam o coitado de vergonha quando chegam espalhafatosas gritando ''benhê'' e outros apelidos cafonas na frente dos amigos. Eles também não ficam atrás e chamam a mulher de ''esposa'', ''rainha do lar'' e o pior de tudo: ''patroa'', que para mim é o fim da linha, o amordaçamento do afeto. Como vocês sabem, quem escreve tem simpatias e antipatias pelas palavras. Eu, por exemplo, adoro encantamento, lírios, luminescências. E detesto esposa, mariposa e camisola. Que expressões feias, meu Deus! Eu me ligo mesmo é nas sonoridades.
Mas como eu ia dizendo, ele é uma mistura de Robert Redford e Kipling. E se eu viro as páginas dos meus sonhos é por conta da imaginação que corre solta nas linhas desse romance. Então eu paro e pergunto: Por quanto tempo um homem é capaz de sustentar uma paixão? Tenho uma amiga que não aposta nadinha neste talento deles e justifica dizendo que, passados dois anos, eles já não beijam tanto, deixam de oferecer música pra gente, enviar poesia, dizer bom dia e arrematar com a frase: ''Acordei pensando em você!'' Ah! Como é bom. Pode não durar, mas enquanto dura é maravilhoso. E antes que os príncipes virem sapos e a gente engula até a lagoa, há sempre tempo de namorar, de dar uma escapadinha no meio do dia, sem que nada atrapalhe, nem trânsito, nem reunião, nem jogo, nem clima, nem profissão. Vai ver por isso sou partidária do namoro e avessa ao casamento. Êta coisinha chata que é misturar as escovas de dentes! Olha que eu adoro praia, mas até o mar enjoa.
Para manter o romance é preciso algum suspense, uma surpresinha, acordar e dormir como quem viaja sem destino. Sempre fui namoradeira, então vamos manter tudo assim, sem mais nem menos. Enquanto estamos no ar, sem previsão de pouso, é possível bater as asas, exercitando uns malabarismos que nos tornam mais criativos. Quando acabar, guardo tudo o que você me contou embalado em fios de seda na memória. O que é bom não se perde, se transforma. Romances nunca são inúteis. Viram lendas, novelas, histórias. Deixe o tempo passar, mas fique assim na fotografia: com o charme de Redford e os enredos de Kipling na ponta da língua. Eu te quero na realidade como na ficção.
Beijos, Alice.
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