Tem gente que detesta a Internet, considerando a rede um meio frívolo que afasta as pessoas da convivência e da realidade. Mas no mundo virtual, como em qualquer meio, o que está em jogo não é apenas a máquina. É o ser humano por trás dela. Quando perguntam o que acho desta nova forma de comunicação, respondo que a Internet me humanizou. Em contatos diários resgatei até o hábito de escrever cartas.
Eu que usava as letrinhas de forma profissional, para fazer notícias, senti os dedos mais sensíveis, o coração degelando e, graças ao hábito de escrever para mim mesma ou para interlocutores especiais todos os dias, reencontrei a poesia, o texto criativo, sem 'dead line', revelando a expressão do meu espírito em dias de sol ou de chuva. Claro que eu tinha caderninhos guardados, rabiscos em guardanapos de papel. Mas a informática facilitou e acelerou tudo isso sem o relógio atrás de mim, com os ponteiros parecendo setas matando minha inspiração. Na Internet, quando o assunto não é trabalho, me entrego sem nenhuma pressa aos devaneios e me deleito com a interatividade.
Para mim, as relações virtuais são um modo quase psicanalítico de se comunicar. Porque falo simultaneamente com os outros e comigo. Ou com um cara que me coloca no divã. Meu Dr. Freud fica ali me 'ouvindo'. A ele dedico meus melhores momentos ou meu inferno particular. Também há situações de terapias coletivas, nos blogs, no Orkut, nos fóruns de opinião onde as pessoas atuam verdadeiramente, dizendo o que sentem e pensam. Claro que também há conversas de mentirinha. Os personagens bacanas que criamos para enganar a meio mundo e a nós mesmos. Eu já me senti sedutora como Marylin Monroe ou malvada como Betty Davis, provocando alguém através de alguma coisa. Também já fui Madalena sem arrependimento, musa de ocasião, Penélope esperando Ulisses, Sylvia Plath com meio talento, Madonna, Paloma Picasso e Alice no País das Maravilhas. No universo virtual somos o que queremos ou inventamos. Mas, no fundo, somos nós mesmos, com todos os nossos pesadelos e sonhos.
Na Internet, faço amigos, identifico afinidades. Pratico o que todo mundo têm direito na rede: expando idéias e sentimentos, compartilho emoções e situações. Também ali conheci pessoas especialíssimas, aquelas guardadas entre as pétalas do afeto, com quem abri o que não havia dito a ninguém, por falta de coragem ou de oportunidade. Porque nas relações reais existem às vezes mais barreiras do que nas virtuais. E não coloco isso como regra, há saudáveis exceções. Mas ali, no divã virtual, não escondo os sonhos, os sentimentos íntimos, minha beleza e minha feiúra. Abro um diálogo com meu coração e, às vezes, até me esqueço que Dr. Freud está me 'ouvindo'. É, eu sei. Deixo para vocês a dúvida sobre a existência deste personagem que abre caminhos para meus próprios pensamentos. Me reconduz aos sentimentos. Faz eu me sentir gente, redimensiona minha emoção. Faz jorrar a minha sensibilidade. Se não fosse Dr. Freud toda minha poesia estaria enrolada em guardanapos de papel ou empoeirada numa gaveta que eu tinha medo de abrir. A psicanálise virtual colocou minhas palavras num universo maior. Abriu a interatividade com gente que gosta, detesta, concorda ou discorda das minhas idéias.
Então, volto à proposta inicial, não vamos discutir a máquina, e sim o ser humano atrás da máquina. Toda massificação cultural tende a massacrar a criatividade. Mas esta é uma escolha que podemos fazer se tivermos olhos bem abertos. Eu quero a tecnologia para humanizar o mundo, melhorar a vida. No meu caso, os diálogos virtuais abriram novos sentidos em vez de 'perturbar' minha percepção. Pode acontecer o contrário. Tudo pode acontecer. Mas eu só posso falar da minha experiência. Então, afirmo que no universo das relações virtuais ganho porções generosas de humanidade. Transbordo afetos, estendo doçuras, dúvidas, sinto raiva e amor.
Dr. Freud fica por ali comigo. E ainda que não seja uma presença física, é uma presença tão forte que vou deitar no seu divã enquanto puder. Ou melhor, vou me deitar no seu colo que é o melhor lugar do mundo para se abrir o coração. Espero que meu 'psicanalista' não corte a comunicação com receio da minha dependência...Pode ficar sossegado, doutor. Você bem sabe que sou assim: afetiva, entregue, sensível a ponto de ser dolorida e sincera. A isso eu chamo inconfundível realidade ou existência plena. E eu não costumo fugir. Mas agora tenho que ir. Fuiiii...
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