PONTO FINAL - Declaração de amor às cidades
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de agosto de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
Eu gosto das cidades, vejo encanto em cada uma delas e, quando viajo, vou adivinhando o desejo das multidões anônimas em suas vidas urbanas. A diferença entre os moradores das pequenas e grandes cidades é que uns correm menos, outros mais. Uns andam de metrô para chegar a locais que até parecem outra cidade. Outros cruzam a rua das Andorinhas e chegam num instante ao Beco das Amoras, onde o mundo acaba em 15 passos.
O que percebo nas grandes cidades é que por ali a alegria depende das luzes, dos barulhos eletrônicos, das escadas rolantes que são meios eficazes de encurtar o caminho, de sacolas cheias de brinquedos, livros, discos que fazem a felicidade da vida moderna, com modernos abrindo sorrisos de orelha a orelha enquanto atendem o celular. E, se são felizes assim, que assim seja.
O que percebo nas pequenas cidades é que o ar bucólico das praças, onde os namorados se beijam, tem um não sei quê de monotonia, de saudade, de tarde modorrenta que pede um sorvete de casquinha, sabores tirados da máquina que antecipa o futuro que decerto chegará na próxima feira, no lombo de um touro mecânico, nas luzes da roda-gigante tão hipnóticas quanto as luzes das megalópoles. Então penso que, afinal, este admirável mundo novo vem sempre coroado de luz nas pequenas e nas grandes cidades. E se for para ser feliz assim, que assim seja.
No fundo, não vejo muita diferença na solidão ou na alegria humana que encontro nas aldeias ou nas metrópoles. No mundo da cidade grande há mais variedade, mais tipos esquisitos cheios de ansiedade, de movimentos frenéticos, contidos na madrugada por algum lexotan, e visivelmente distribuídos ao longo dos dias nas esquinas, nas lojas, nos apartamentos. E a vida ganha a configuração de uma batalha muito árdua e muito rápida. Um vaivém de automóveis que não se entendem, de trânsito caótico, de desejo incontido de furar a fila para chegar depressa. E todo mundo vai contando o tempo que falta para o fim de semana quando uma balada redimirá a todos de toda ansiedade. Isso depende de porres nas noites quase vazias onde, enfim, se aquieta o coração depois de muita conversa, muito cigarro, música, dança e bebida. Então fica-se frente à frente com a cidade nua. Porque na metrópole é preciso esperar a madrugada para ''ouvir'' um pouco de silêncio, de paz, de calmaria.
Já nas pequenas cidades percebo que as ansiedades também existem porque se quer, a todo custo, alcançar as novidades. E a falta de barulho, os postes mal iluminados podem também deixar as mentes sozinhas e inquietas. Por isso, quando desembarca no interior um tipo da cidade grande, os donos dos bares, dos pequenos hotéis, as manicures e donas de mercadinhos alvoroçam aquele olhar curioso que substitui perguntas, questionários, entrevistas inteiras. Quando é comigo vou logo dizendo: ''Ah! Eu venho de Londrina, uma cidade nem grande nem pequena, onde também sofremos de ansiedade. Como vocês sabem, a vida não tem jeito, e não há calmante que nos redima de alguma tristeza aqui ou ali. Mas eu gosto mesmo é de viver assim, viajando entre as cidades, para ver o mundo sob novos ângulos. E sou de paz, desembarco em perfeita harmonia nas pequenas e nas grandes cidades, porque , no fundo, a maior diferença entre elas é a lentidão e a pressa. Sou adaptada às duas coisas. Sou de Londrina, onde o tempo ganha qualquer conformação. Londrina não é metrópole nem aldeia.''
Por conta desta minha sinceridade já fiz muitos amigos. Os corações se abrem quando nos entregamos primeiro. Embora eu tenha um tiquinho assim de medo das grandes cidades, nunca me dei mal com elas. Assim como me dou bem nos vilarejos onde me despojo das agonias do desconhecido e faço amizade fácil.
Andar pelo mundo é fácil quando a gente se coloca como um viajante sem preconceitos, apenas interessado na humanidade de cada habitante. E eu já vi por aí muita humanidade, no rosto da vendedora da loja da pequena cidade ou no aperto de mão do gerente de uma das maiores livrarias do mundo.
Enquanto não sofrer um assalto, não enfrentar tiroteio ou alguma estranheza que me faça duvidar da humanidade, continuarei acreditando que os abismos entre as cidades são quase imperceptíveis, se você as enxerga pelo coração. Eu, pelo menos, só vejo aquilo que vai de encontro a minha emoção e tenho tido grandes encontros por conta deste meu amor a novas paisagens, porque sou nômade da urbanidade.
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