Sim, hoje me senti como a personagem do filme, mas ao contrário da garota que sai correndo para tentar salvar a vida do namorado em apenas 20 minutos, eu corri parte do dia para salvar minha conta bancária. É, eu esqueci de programar o débito do cartão de crédito e se não corro logo de manhã, ia amargar o descuido pelo resto do mês. Sabe como é, primeiro os bancos te aliciam, te dão saldos virtuais e muita corda. Você chega a acreditar que o gerente te ama, que o sistema te adotou, enfim que cartão é coisa do ''bem'' mas depois, na hora de pagar:''Corra, Lola, corra!''
E foi o que fiz. Queria pagar um valor acima do mínimo exigido, mas não tudo. Me consolo pensando que até prefiro ficar devendo do que zerar...e gastar de novo. Acham que sou maluca? Não sou, não. Só um pouco compulsiva quando vejo livros, discos, roupas e objetos de decoração. Já viram a casa dos taurinos? Tem um vaso aqui, outro ali, uma coleção de porta-retratos e outras bobagens que é melhor nem contar. Já comprei até gaiola sem ter pássaros. Na verdade, de uns tempos para cá tenho tentado ficar zen, adotar o estilo japonês: um tatame, um quadro, uma flor. Mas ainda estou em fase de treinamento. Enquanto não atinjo o despojamento, procuro me dispor das coisas em vez de comprar e até soube de um site chamado Xcambo, assim mesmo como escambo, mas com xis, onde você troca tudo o que não te serve mais por outros objetos que não servem mais para outra pessoa. Enfim, a gente troca os excessos.
Voltando ao papo da Lola, quando descobri que tinha uma hora para agendar o cartão antes de ir para o trabalho, entrei em pânico. Na esquina do banco já percebi que a parada seria dura, havia tanta gente na calçada que pensei que havia desembarcado no Morumbi em dia de jogo do São Paulo.
Depois de deixar todos os aposentados entrarem na agência, chegou minha vez de esvaziar a bolsa para que o alarme eletrônico não disparasse avisando aos guardas que havia ''metais'' perigosos guardados ali dentro. E lá fui eu, deixar o celular, as chaves, uma caixinha metálica de balas que não têm nada a ver com revólver e uma embalagem de Neosaldina, porque descobri que qualquer coisa metálica, sim eu disse qualquer coisa, pode disparar o maldito alarme. Cansei de passar vexame por causa de embalagens de inocentes analgésicos que dão a maior dor de cabeça em portas eletrônicas. Já pensaram nisso, ficar enroscada com o segurança te olhando desconfiado enquanto você descarrega seus comprimidos?
Depois do fatídico ritual, entrei numa fila modesta perto daquela que me lembrou a torcida são paulina. Peguei a senha e, finalmente, com aquele papelzinho mágico na mão pensei que, enfim, seria atendida ali mesmo, no primeiro andar. A alegria durou pouco. Um espírito zombeteiro soprou nos meus ouvidos: ''Corra Lola, corra!'' E fui para a fila do elevador já imaginando que, para não perder tempo, deveria subir de uma vez os 30 degraus da escadaria para poder falar com os deuses que haveriam de resolver tudo.
Rezei para São Guido, São Judas Tadeu e finalmente lembrei de São Longuinho, aquele mesmo dos pulinhos, que talvez pudesse atender a ''clientela'' dos apressados como eu. Deu certo. O elevador apareceu em 2 minutos. Saudei o santo e fui quase alegrinha para o terceiro andar enfrentar outra fila que parecia aquela que se formou para o show do U2 no Brasil. Ao meio-dia, com o sol estalando lá fora, o tempo correndo, e eu naquela ansiedade de quem nem sabe se vai ser atendida na solicitação de rolar a dívida, pude falar enfim com o cara que haveria de resolver todos os problemas de...Lola. Para minha surpresa, meu caso era fácil. Com três cliques no mouse, um funcionário simpático disse que eu poderia saldar só o que quisesse do cartão e eu fiquei tão feliz que quase o declarei o herói da minha independência, com medalha e tudo. Mas antes que ele me julgasse completamente doida eu disse ''obrigada!'' e saí correndo pela escadaria para tentar alcançar o elevador pelo menos no segundo andar. Ofegante e meio descabelada consegui ser a décima quarta pessoa a entrar na geringonça e tinha exatos 10 minutos para chegar ao jornal.
Voando pelo calçadão da Avenida Paraná ouvi uma voz conhecida dizendo ''Corra, Lola, corra!'' Era um velho amigo que me abraçou e veio todo contente contar que acabara de ganhar um ''presentão'' num banco: um cartão de crédito. Eu vi aquele cartãozinho amarelo-dourado entre seus dedos e não me contive gritando: ''Vade retro, Satanás!'' Ele não entendeu nada, deve ter pensado que eu havia me convertido a uma dessas igrejas malucas ou que estava congelada no tempo em que éramos todos comunistas na faculdade de Comunicação, completamente avessos ao capitalismo selvagem. Cá pra nós, não deixa mesmo de ser ''animal'' encarar oito horas de trabalho depois de bancar a heroína da São Silvestre do sistema financeiro. Repeti para mim mesma: ''Corra, Lola!'' E ri sozinha enquanto ele se despedia dando adeusinho com aquele maldito cartão. Me benzi como a vó Ida quando queria se livrar de todo mal e disse ''amém!'' pensando firme em São Longuinho.
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