E não é que uma tucana enfezada arrancou a dentadas o dedo de uma petista lá no Rio? A história vocês já sabem: na madrugada de segunda-feira, a publicitária Danielle Corrêa Tristão circulava num bar do Leblon com os amigos, todos vestidos com uma camiseta do Lula, quando um grupo de eleitores do Geraldo resolveu tomar satisfações. Bate boca daqui, bate boca dali e, de repente, numa ação inesperada, a jornalista Ana Cristina Luzardo de Castro avançou e ..nhac, mordeu o dedo anelar de Danielle até a ponta rolar no chão. Depois a jornalista foi correndo registrar queixa numa delegacia. Parece que de agressora quis passar a agredida. O que é isso, coleguinha? Danielle não poderá reimplantar a falange e se os peritos concluírem que a lesão corporal foi grave (sic), a jornalista poderá pegar até oito anos de prisão.
O fato inusitado me faz viajar no tempo. Desembarco no Brasil quinhentista quando os europeus se depararam com um estranho costume dos indígenas. Os tupinambás - tribos que se concentravam no litoral - capturavam inimigos nas guerras e alguns eram levados à aldeia para uma grande festa antropofágica. Sim, o inimigo era comido, mas antes rolava um ritual muito mais rico do que esta história de decepar dedo a dentadas. O guerreiro que serviria de banquete era conduzido à oca pelas mulheres, uma delas era designada para se casar com ele, mas não podia sentir nem um tiquinho de afeto pelo marido de ocasião. Claro que, por alguns momentos, o cabra ficava até satisfeito. Aquele clima de festa, aquela mulherada, ele sendo visto, literalmente, como o gostosão. Mas quando o braseiro começava a arder e um guerreiro da tribo olhava para ele com cara de matador, o cabra suava frio. Mas era tarde. Ele seria inevitavelmente o prato principal da festa. O que os índios queriam comer, na verdade, era seu poder, seu conhecimento e suas qualidades. Embora o banquete fosse um ato de vingança.
O alemão Hans Staden, que esteve no litoral de São Paulo, descreve com precisão uma cena antropofágica ocorrida em 1557. Há outros registros escritos e visuais das práticas canibalescas imortalizadas nas gravuras dos holandeses Theodore de Bry e Albert Eckhout. O último pintou um ritual de canibalismo tapuia, como eram chamadas as tribos indígenas do interior do Brasil. Em tempos bem mais recentes, o cineasta Nelson Pereira dos Santos evocou os mesmos costumes no filme 'Como Era Gostoso o Meu Francês'. E ninguém pode contar esta história sem falar da 'sorte' de Dom Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, que foi comido pelos caetés, em 1556, depois de naufragar no litoral de Alagoas. Pobre, Sardinha. E não é que o nome é apetitoso?
Atualmente, o canibalismo cultural parece extinto. Sobram exemplos de canibalismo doentio praticado aqui e ali por insanos que até guardam o corpo das vítimas no freezer, para comer aos poucos. E antes que o texto passe a provocar náusea, lembro da última briga feia de cachorros que vi lá no bairro. Totó e Filé nunca se deram bem. Quando se cruzam um olha pro outro enfezados com aquelas caras de petista e tucano se encontrando. Um fala de corrup..cão. Outra lembra a privatiza..cão. E por aí vai. Da última vez, os cães se engalfinharam pra valer e, em questão de minutos, Filé perdeu um pedaço do rabo que parecia uma franja de pêlos lisos da qual, eu acho, ele tinha o maior orgulho. Filé ficou cotó. Perdeu o rabo na rua. Mas, enfim, isso é briga de cachorro. Não compreendo como é que uma jornalista, num ato raivoso, avança para o dedo de uma petista e consegue decepá-lo a mordidas. O gesto tresloucado me remete a uma outra imagem de campanha com a qual não me conformo: trata-se daquele adesivo que traz uma mão sem dedo debaixo de um sinal de 'Pare'. Não sei o que vocês pensam disso, eu acho de mau gosto e muito preconceituoso. Em nome da política, coisas inacreditáveis acontecem. Nunca é demais lembrar que estamos na reta final para as eleições e os ânimos andam bem acirrados. Por precaução, se eu chegar a sair por aí vestindo alguma camisa, vou completar o figurino usando também uma luva...de boxe.
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