PONTO FINAL - Camões e os recordes
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de dezembro de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
Se Camões vivesse hoje entraria para o Guinness Book por conta dos 8816 versos do épico Os Lusíadas. Mas o poeta foi homem de outros tempos. Dos tempos em que as coisas eram feitas para durar, eternizar, comover ou convencer pelo seu valor intrínseco. Ele escreveu Os Lusíadas para cantar as glórias de Portugal, narrar à maneira de Homero as descobertas de seu país, do navegador Vasco da Gama e seus companheiros. Então não fez a ''viagem'' como coisa efêmera, de efeito instantâneo e nem pelo valor do recorde, mas pela beleza e a eloquência.
Mas eu falei do Guinness porque me lembrei que hoje os cinco minutos de fama levam as pessoas a fazerem coisas estúpidas, fugindo da complexidade. Dou um doce para quem conhecer na contemporaneidade alguém capaz de ''costurar'', em forma de alta poesia, 8816 versos decassílabos, reunidos em 1102 estrofes divididas em 10 cantos. Uma coisa dessas é renda portuguesa, feita no capricho como o bilro ou a renascença. E juro que não acordei atacada pela nostalgia, nem padeço de febre saudosista. Mas não deixo de achar estúpido alguém parar no Guinness porque comeu 500 hambúrgueres em 24 horas ou se transformou na campeã de body piercings como a brasileira Elaine Davidson, que tem 1903 penduricalhos pelo corpo. Cruzes! A mulher é uma árvore de Natal. Nesta época do ano deve fazer mais uns furinhos para pendurar a rena, a bota do Bom Velhinho, a estrela de Belém, e balança por aí como um alvo de gincana de argolas. Mas enfim, deitou na cama da fama porque tem 1903 piercings. E ganha prêmios por isso.
Querem conhecer mais recordes gloriosos? As Ilhas Maldivas têm o maior índice de divórcios do mundo. Não sei se porque lá existem sogras megeras, homens indecisos, mulheres descartáveis ou são mesmo os ares marítimos, capazes de virar a cabeça da gente, principalmente nas ilhas. Mas isto é outra ''viagem''.
O Guinness ainda aponta que o trem japonês bate o recorde de velocidade no planeta. Assim como o Japão deve ser o recordista em número de celulares e Nova York a cidade que mais concentra restaurantes fast food por metro quadrado. Pensando em tudo isso, lembro de meu pai balançando a cabeça quando via algum absurdo e advertindo: ''Isto só pode ser coisa de americano.'' ''O que pai?'' ''Ah, filha, estes recordes todos, estas bobagens, este Guinness aí''. Porque para o meu pai sandice só podia ser coisa de americano. Mas o Guinness é coisa de inglês, pai. Coisa de inglês para inglês ver, porque não tenho a menor curiosidade para fatos bizarros como, por exemplo, saber quem é o maior caçador de moscas do mundo ou qual capital que tem o maior número de baratas.
O Guinness pai, foi uma idéia do ''Sir'' Hugges Beaver, diretor da cervejaria Guinness, que durante uma caçada, em 1952, se envolveu numa discussão sobre ''qual seria a ave mais veloz de todas.'' E estou vendo o ''Sir'', com aquela cachorrada, correndo atrás dos patos selvagens e levando um baile enquanto matutava sobre a velocidade das aves. Assim nasceu o livrão dos recordes. O que, pelo menos, é uma curiosidade menos bizarra do que saber quem é o homem que mais tem calos nos pés ou a mulher de unhas mais compridas. Francamente!
Enquanto isso, fico pensando na genialidade de Camões e numa das estrofes dos Lusíadas:
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o feito ilustre lusitano
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Para quem não sabe, Camões morreu na miséria em 1580. Mas seus versos atravessaram o tempo, cruzaram mais de 400 anos e foram traduzidos em todas as línguas. Tudo isso depois do poeta morto. Porque em vida, ele recebeu pelo seu ''feito'' uma pensão diária de 40 réis de D. Sebastião, rei de Portugal. Para se ter uma idéia do que significava esta ''fortuna'', um carpinteiro, na mesma época, recebia cerca de 160 réis por dia. Como se vê, quando se trata de valores e números, este mundinho é uma equação inexplicável. Mas sei que isto também tem pouca importância. Ouvi dizer que, hoje em dia, as pessoas só lêem Camões para tentar passar no vestibular.
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