PONTO FINAL - Beleza que mata
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de novembro de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
A modelo Ana Carolina Reston Macan morreu esta semana aos 21 anos. Morreu de anorexia. Morreu tentando equilibrar entre a vida e a passarela o sonho de ser Gisele Bundchen, Isabeli Fontana, Ana Hickmann. Isso me faz pensar sobre o que significa estar exposta aos holofotes. Mais que isso, estar exposta à visão crítica dos olheiros para quem 2 ou 3 quilos a mais podem fazer toda a diferença. Ser modelo transformou-se no grande sonho das mulheres jovens. Sonho que pode ter contornos de pesadelo.
Na academia que frequento, observo meninas sem um grama de gordura na barriga malhando como se pesassem 90 quilos. Elas se vêem quase sempre de forma depreciativa, reclamando das pernas que poderiam ser compridas, dos seios que consideram pequenos, da boca que queriam sensual. Não medem esforços para chegar àquilo que julgam a perfeição mas, neste esforço, cometem o equívoco de cultivar apenas o corpo como se a beleza também não dependesse da força da personalidade, dos encantos da inteligência, da delicadeza dos sentimentos, do brilho do espírito. Fico pensando em que momento nasce dentro dessas meninas a exigência de serem padrões de beleza, determinados por olhares alheios. Quem ou o que construiu dentro delas a certeza de que só é possível chegar à felicidade sendo alta, magra, charmosa, enfim, sendo... modelo?
Todo mundo quer ser bonito. Mas os feios espertos sabem que nem sempre o mais bonito é o mais gostoso. Tampouco o mais feliz. Conheço pessoas que se realizam com quilos a mais, uma maneira relaxada de ver o mundo, um otimismo que suplanta crises imponderáveis. Conheço pessoas que, sob o peso de doenças graves, multiplicam por cem as suas chances de sobrevivência acreditando que é possível superar todas as ''falhas'' do sistema. E vão em frente, enfrentando tratamentos, riscos, cirurgias.
Então, quem não nasceu com o nariz perfeito, o bumbum arrebitado, a pele sem espinhas tem chances de sentir-se vitorioso se não se curvar às regras cruéis de uma sociedade em que homens e mulheres valem mais pela aparência do que pelo potencial humano. O fato é que convivemos com uma dura realidade que provoca nossos sentimentos de inferioridade quando não somos ''modelos''.
Como jornalista, já vi a exigência distorcida de mães que são as primeiras a estimular em suas filhas a necessidade de brilhar, ainda que o brilho ofusque os sonhos mais delicados da infância, como brincar e correr livremente até encontrar seu próprio caminho. Não faltam por aí concursos de miss precoces, destinados a colocar muito cedo as crianças no mundo das aparências. Não é preciso entender profundamente de psicologia para imaginar que os estímulos que recebemos na infância vão repercutir por toda nossa vida como valores plantados em terreno vulnerável. Então, estimular meninos e meninas a se cuidar, a se gostar, a ter higiene é diferente de atirá-los num mundo competitivo em que a beleza física conta mais do que a beleza humana. Temos uma grande responsabilidade nestes tempos equivocados: recolocar no devido lugar a importância de criarmos seres integrais, que pensam, sentem, se expressam. Que não serão apenas uma casca de vaidades, uma embalagem vazia. Mas frutos com conteúdo, capazes de destilar maravilhosas essências. O ser humano integral deve tomar com urgência o lugar dos seres fragmentados que perseguem seu lugar ao sol convencidos de que os flashs e holofotes vão lhes garantir a felicidade.
Vivemos tempos de valores invertidos, que galopam à velocidade do mundo cosmético da cirurgia plástica, da lipoaspiração, dos recursos estéticos dedicados a criar um modelo de ser humano presumivelmente feliz. Não pode ser feliz quem morre de anorexia. Não pode ser feliz quem se priva das delícias do banquete da vida onde existem prazeres cotidianos que incluem comer o que se tem vontade, divertir-se sem a preocupação exagerada com o peso, a barriga saliente, a orelha de abano. O ser humano é mais feliz quando transgride as regras de perversos mecanismos sociais de aceitação e rejeição. A vida é um espaço de liberdade de escolhas. Assim, a imposição de ser bonita, a imposição de ser perfeita, a imposição de ser ''modelo'' transita na contramão das diferenças saudáveis. A convivência é mais alegre quando há altos e baixos, gordos e magros, negros e brancos. Um mundo sem diversidades só consegue ser mais triste. Ninguém fica feliz quando uma moça, de apenas 21 anos, morre vítima da beleza padrão.
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