PONTO FINAL - Amigos virtuais e intergaláticos
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de junho de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
Os e-mails resgataram na vida das pessoas o hábito de escrever umas para as outras. Até surgirem, a correspondência andava em baixa e o dia-a-dia, cada vez mais apressado, não deixava ninguém enfileirar assuntos, fazer pactos de amizade, dar afeto aos filhos à distância tendo ainda que colocar tudo no envelope, colando o selo para despachar as emoções pelo correio. Quando conseguíamos, literalmente, dar conta do recado, a resposta demorava. Sim, eram dias e semanas de coração apertado, até que o bendito carteiro trouxesse de volta a esperança de que nem tudo estava perdido nas relações humanas.
Agora tudo mudou. Acordamos de manhã, sacudimos a preguiça, tomamos café e, dali a pouco, já podemos ler os e-mails com tudo de bom, ruim ou inacreditável que eles trazem a nossa pacata existência. Todo dia acordo com as notícias, o carinho dos amigos, a oração fortíssima de alguém que me faz prometer que ''não vou quebrar a corrente''. Ai, ai, ai. Esta gente toda reunida aqui em casa, me faz sentir calor humano nas manhãs frias que seriam bem mais tristes não fosse essa multidão virtual que me envia mensagens de outras cidades, outros países e até de outros planetas, assim, num piscar de olhos.
Para quem duvida que é possível conversar com ETs pela internet, posso mostrar a mensagem que recebi de um sujeito que assina Alfa Ômega e se diz representante de uma galáxia fora do sistema solar. Arrepiei quando abri o e-mail. Apesar de não ser especialista em UFOs sempre achei que aquela história de Varginha fazia algum sentido, até porque um amigo jornalista me contou que um professor da Unicamp jurou de pés juntos que o ET de Minas foi recebido nas clínicas daquela respeitável universidade, ficando ali abrigado durante meses. E deu detalhes: o estranho ser não parecia de carne, mas de látex.
Sim, podem rir à vontade. Eu também ri quando soube da história.
Para ser sincera quis medir a temperatura do meu amigo, para ver se não tinha febre, na hora em que me relatou o fato estapafúrdio como se fosse a coisa mais corriqueira. Eu, hein? ET de Varginha na Unicamp? Dispensei minúcias, mudei de conversa, quis falar de futebol, enfim, declinei do papo sobre seres do outro mundo porque neste mundo já estou com dificuldades para entender temas enigmáticos como segurança pública, eleições, alimentos transgênicos, o preço da gasolina e o salário dos políticos.
Voltando ao calor humano, confesso que a multidão virtual que se reúne lá em casa me faz feliz quando deixa na minha caixa postal poemas, contos, bilhetes, cartas, notícias quentes, dicas de pauta, confidências, enfim, tudo o que pode ser comunicado por escrito, com a vantagem de estar documentado.
Quando escrevemos e-mails resgatamos ainda, como no tempo das cartas, alguma delicadeza. Ganhamos estilo, criamos linguagens, apelidos carinhosos e, invariavelmente, encerramos acrescentando beijos, abraços, doçuras, ''firulas'' que andavam esquecidas nas conversas impessoais ao telefone.
Na internet, só não aprecio expressões que viram modismos como ''beijos no seu coração'', que considero piegas. Essas mensagens são uma prova de falta de imaginação quando começam a circular em massa como uma convenção da tribo. Também detesto aqueles mamutes, macaquinhos e peixinhos que são enviados para encher nossa vida ''com a magia das cores''. Na verdade, gostaria que todas estas ''espécies'' estivessem à beira da extinção.
Para mim, as palavras bem colocadas ainda são insubstituíveis. Elas têm o valor de registrar nossa passagem pelo mundo de modo original e único. Cartas e e-mails, livros e diários contêm partículas das nossas vidas que se perderiam, não fosse o incrível poder da palavra em desdobrar o tempo. Além disso, os textos instigam nossa imaginação e nos fazem até acreditar em coisas incríveis como a identidade intergalática do Sr. Alfa Ômega que acaba de me enviar mais um e-mail afirmando que políticos desonestos poderão ser abduzidos antes das eleições. Acreditem ou não, ele me solicita uma lista de nomes ''para a viagem espacial sem volta''. Eu pedi um tempo e aceito sugestões para a resposta.
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