Os sentimentos deveriam ser uma escolha, daquelas que a gente faz quando não quer se molhar e põe uma capa de chuva. Quando não quer sentir frio e põe meias nos pés. Mas eles encharcam a alma e para isso não há proteção no ato contínuo de viver.
É como se nos colocassem na roda-gigante sem chance de saltar lá de cima e, embaixo, não há tempo para sair da cadeirinha com o mecanismo girando. E ficamos ali, à mercê da continuidade.
Há um Deus para as grandezas, para fazer o Sol nascer e cobrir a Terra de florestas. Para fazer o mar entornar ondas de 10 metros e providenciar gravidade para os planetas em rotação. Mas acho que não há um deus para as pequenas coisas, para nossas insatisfações corriqueiras, os lamentos, os ais, as perdas que não se contabilizam, as lágrimas furtivas. Queria um deus que colasse os ouvidos à Terra e tirasse as farpas do cotidiano. Um deus para a consolar a moça que perdeu seu amor, a idosa que não consegue colocar linha na agulha, a criança sem brinquedo, o pai sem grana. Para isso, existem frases que são o clichê da existência: ''Tudo passa!'', ''A vida é assim mesmo!'', desculpas esfarrapadas para situações sem script.
Eu sou muito valente. Sou capaz de enfrentar grandes distâncias e encarar os mais diferentes desafios. Topo boas brigas e luto quixotescamente pelos sonhos. Mas esta façanha depende de um coração fortalecido no amor, amparado nas delicadezas, nas sutilezas e nos sinais de esperança. Para mim, uma folha que cai não passa despercebida. Sou muito atenta a mudanças, observadora como um tigre nas caçadas ou como um pequeno pássaro que constrói o ninho levando em conta a posição do vento. Nada passa despercebido, um gesto, um aceno, um ruído, um sussurro. Meus sentidos cósmicos traduzem mensagens quase imperceptíveis.
Então, o que me entristece é o vacilo da generosidade, a negação do afeto, a sombra do não, o estancamento do jorro, as mesquinharias do dia-a-dia. Porque eu não experimento a emoção. Mergulho de corpo inteiro e saio da água com a cara lavada e aquele espírito infantil que me faz acreditar que tudo é possível, que não há limitações a não ser aquela que criamos como um impedimento sombrio ao ato de VIVER! Nos meus sonhos existem sempre soluções também para as coisas que nos espezinham e às vezes dependem de ações de homens de boa vontade. Na falta dessas pessoas, na ausência da generosidade para enxergar e resolver as miudezas, os sofrimentos ínfimos, eu procuro uma solução metafísica para a falta de pão ou a falta de ternura.
São complexas as relações humanas e eu fujo dos julgamentos. Me nego a aferir a atitude do outro para não entrar no terreno improvável da suposição. O outro é sempre um labirinto e cada atitude negada ou consentida é um gesto pessoal de defesa ou libertação. Então eu não julgo. Eu espero que as nuvens se dissipem e que minha visão se torne clara, meu olhar sem neblina. Mas a única coisa da qual não posso me furtar é do que sinto. Porque sentir é diferente de pensar. Sentir é andar sobre uma lâmina com pés de veludo. Eu tento, mas não posso garantir que não vou me machucar. Preciso encontrar o deus das pequenas coisas e encaminhar minhas preces.
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