PONTO FINAL - A geada não é mais a mesma
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de setembro de 2006
Célia Musilli<br> Editora da Folha2 
Veio o frio fora de época, acompanhado de geadas. No Paraná elas são comuns no inverno e me deixaram memórias de quintais cobertos por uma camada fina de gelo. Na minha infância, o anúncio da geada significava um sobressalto grande. Afinal, o que estava em risco eram as lavouras de café, que cobriam o norte do Paraná muito antes do ciclo do trigo e da soja determinar outro tipo de relação entre a cidade e o campo.
Nos anos 60, o rigor do inverno era medido pela intensidade das geadas. À noite todos pregavam o olho no céu limpo, estrelado, viam a temperatura baixando nos termômetros colocados nas varandas e aqueciam o coração e as idéias com alguma bebida que relaxasse a tensão da espera pela Dona Geada.
Ao amanhecer, com o nariz grudado nas vidraças, as crianças olhavam o telhado do vizinho coberto por uma névoa branca, os gramados estalando ao sol finas camadas de gelo e ouviam o lamento dos adultos inconformados com a perda, sobretudo dos cafezais. Os comentários surgiam aos poucos, no decorrer do dia, dando conta do prejuízo nas regiões mais baixas, onde a geada é intensa, e de todos os esforços que tinham sido despendidos para sobreviver à danada.
Havia quem fizesse fogo entre as fileiras das plantações, na esperança de que o calor driblasse o frio que queimaria as folhas e os frutos do café assim que o sol derretesse o gelo. Passei a infância ouvindo falar de técnicas mirabolantes para enganar Dona Geada. Sem resultado.
Em 1975 ela veio com força. Baixou uma tristeza enorme no Paraná quando a geada negra dizimou para sempre os campos verdes onde só se via café. Plantações soberbas que se alinhavam nas encostas e nos vales. Bonitas, elas foram um cartão-postal da minha infância, quando só se via café, bebia-se café, vivia-se café, a planta que deu a Londrina a fama de cidade rica, arrojada, moderna, onde brasileiros e estrangeiros coexistiam numa verdadeira ''corrida do ouro'', garimpeiros de um novo tempo.
Mas veio a geada negra e as notícias das perdas imensas. Agricultores choravam ou sacudiam a cabeça olhando o espectro das antigas plantações. Aviões do governo sobrevoando o Estado davam conta de que o prejuízo era incalculável. Na verdade, a grande perda ecoaria por décadas com o fim de um ciclo que expulsou os trabalhadores dos sítios e das fazendas. Do dia para a noite, o Paraná deixou de ser verde, tinha se convertido num mar enegrecido de plantas mortas. Nos jornais, fotos aéreas de plantações ressequidas eram a prova que, daquela vez, o sonho havia sido enterrado debaixo das camadas de gelo.
O norte do Paraná nunca mais foi a mesmo. No lugar do café vieram o trigo e a soja, grandes plantações que exigem trabalho mecanizado. O homem praticamente deixou de fazer parte do cenário do campo. Hoje o que se vê são tratores solitários trabalhando no plantio e na colheita. E os novos grãos necessitam de doses cada vez maiores de fertilizantes e agrotóxicos que alteram substancialmente a qualidade da terra. Ainda gosto de ver plantações. Nas viagens, meus olhos se perdem nos tapetões das lavouras. Mas hoje nem o anúncio da geada causa tanto impacto. O trigo plantado no inverno aguenta mais o frio e a relação com o clima mudou aqui na região. Hoje ficamos sabendo da geada pela TV e não há expectativas na noite, termômetros na varanda nem crianças grudadas na vidraça. Ainda assim, nas manhãs de inverno me bate uma nostalgia. Sinto saudades do café e do tempo em que as geadas eram realmente um fenômeno. Parece que a natureza não mora mais aqui.
[email protected]


