Francis Ford Coppola escreveu num blog: ''O que está faltando? Qual pode ser a razão para a mesma pessoa, mais tarde na vida, ser incapaz de competir consigo mesma quando era um jovem artista? Há algo mesmo faltando, ou a reposta é simples: que a cada pessoa é dada apenas uma ou duas idéias que realmente valem a pena, como duas flechas num coldre?''
A indagação, transcrita no início da semana na Folha de S.Paulo, é do cineasta que dirigiu a trilogia ''O Poderoso Chefão'' , entre 1972 e 1990, e ''Apocalypse Now'', em 1979. E isso basta para consagrar qualquer pessoa. Depois de produzir dois outros filmes que não podem ser considerados da melhor safra ''Jack'' e ''O Homem que Fazia Chover'' Coppola se recolheu e passou a se dedicar a negócios que exigem outro tipo de talento: a sua vinícola na Califórnia e dois hotéis em Belize, na América Central. São informações corriqueiras, incluídas na reportagem, mas que me fazem pensar no tipo de inquietação que pode assombrar um gênio, depois que ele realiza o melhor de si. O que pensou Whitman depois que compôs ''Folhas de Relva''? Tenessee Willians depois de ''Um Bonde Chamado Desejo''? Scott Fitzgerald depois de ''O Grande Gatsby''? Orson Welles após ''Cidadão Kane''?
E me ocorre que citei uma série de americanos, então dou um salto entre as Américas e pergunto como se sente Chico Buarque depois de ''Gota D'Água''? E Glauber Rocha, o que pensou depois de ''Terra em Transe''?
Copolla fala da realização na juventude. E também fico imaginando que o melhor de cada um pode acontecer enquanto pensamos ainda como estudantes. Aquela criatividade viva e imprudente. Sem grande auto-crítica, imatura, mas que nos impulsiona a mostrar o que sabemos, sem medir consequências, sem pensar em agradar, em dar Ibope.
Dia desses, assistindo à premiação do festival de cinema de Gramado, vi a espontaneidade do jovem diretor Esmir Filho, que ganhou o Kikito de melhor curta-metragem por ''Alguma Coisa Assim''. Agradeceu falando demais, sem se importar com o tempo e o conteúdo. Penso que, daqui a uns anos, este mesmo cara poderá estar pensando no que dizer e no que fazer. Contando minutos, cortando cenas. Às vezes acho que a juventude nos protege. Ou será apenas a inocência do tempo em que ainda não fazemos questão de ser geniais? É, acho que a inocência ou o despojamento dos impulsos primitivos fazem bem à criação.
Mas o sucesso, e não a criação, é um terreno escorregadio. Uma amiga, que conhece Anselmo Duarte um dos grandes nomes do cinema nacional me falou uma vez da angústia que pressentia naquele homem que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1962, com o filme ''O Pagador de Promessas', dirigido por ele. A sua impressão é que Anselmo tentou repetir a façanha, sem nunca se deparar com outra chance à altura.
Talentos precoces, como Shirley Temple, que encontram a fama na infância, podem passar a vida ofuscados porque o mesmo sucesso não se repete na maturidade. Há ainda aqueles talentos de fama meteórica que morrem cedo, como James Dean e Marilyn Monroe por que não? que levam a estrela da fama para a eternidade. Mas, depois de morto, quem se importa com ela, não é mesmo? E o que dizer de gênios, como o pintor Van Gogh, que nunca conheceram o sucesso, e nem mesmo o merecido reconhecimento e que, depois da morte, passam a ser supervalorizados no mercado de arte?
É mesmo escorregadio o caminho do sucesso. E pontuado de incoerências que determinam a felicidade ou a infelicidade pelo menos para os artistas, porque eles expõem suas vísceras num trabalho e, certo ou errado, o aplauso, a audiência, enfim, o reconhecimento são fatores que fazem a diferença neste caso. A menos que o sujeito seja do tipo para quem o ato de criar não tem nada a ver com o julgamento alheio, seja do público ou da crítica. Mas isso é raro. Então, penso mesmo que para quem é extremamente sensível, certos mecanismos de defesa são necessários para a preservação de valores que estão acima do aplauso ou da vaia ao longo da vida.
Para além da idade, a poesia de Cora Coralina foi descoberta quando ela tinha quase 70 anos, assim como a violeira Helena Meirelles gravou seu primeiro disco aos 69. Ao aparecer para o público sem aquela aura de grandeza de quem faz sucesso na juventude, elas mantinham um não sei quê do talento inocente que poupa os artistas da arrogância e também da estagnação. Parece que quem fica famoso muito cedo, passa a vida tentando se repetir ou competir consigo mesmo. E nos delírios de grandiosidade as pessoas se perdem. Ou será como afirma Copolla: Ao coldre de cada homem são dadas apenas uma ou duas flechas certeiras?
Passando a existência a perseguir o alvo, podemos errar consecutivamente. Acredito que o melhor de nós pode acontecer quando estamos ainda meio distraídos ou não imbuídos do convencimento de que somos especiais. Há exceções, como em tudo. O que não podemos é passar a vida correndo atrás do próprio rabo ou correndo atrás dos próprios acertos. E isso também vale para as pessoas comuns. Para mim, arriscar-se é a ainda a fórmula mais criativa de viver. O mundo das certezas é muito chato. Como o da autoconsagração.
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