Quem compareceu domingo ao Cine-Teatro Ouro Verde com a intenção de comprar ingressos para o espetáculo ''Sotaques do Brasil'', que uniu o sanfoneiro paraibano Sivuca à Orquestra Sinfônica da UEL, sob a batuta do recém-nomeado maestro-adjunto Henrique Vieira, ficou triste e alegre. Triste, porque recebeu a informação, na bilheteria, de que a lotação para o show estava esgotada. Mil ingressos haviam sido vendidos - 150 a mais, em cadeiras extras, para ampliar os 850 lugares disponíveis - até às três horas da tarde do dia anterior. Mas logo ficou alegre, porque haveria uma sessão extra, a seguir, uma gentileza de Sivuca ao público londrinense. O sanfoneiro que mistura o erudito ao popular em ''concertos sanfônicos'', como gosta de dizer, prontificou-se a fazer a sessão extra em pleno ar, ainda no sábado, quando dava entrevista à Rádio Universidade FM, emissora que trouxe o artista à cidade para comemorar os seus 13 anos.
E quem esperou com paciência, até às nove e meia da noite, para o segundo espetáculo, em uma fila que saía à esquerda do teatro e dobrava o Calçadão, chegando até a rua Sergipe, onde virava de novo - num total de quase mil pessoas -, sentiu-se amplamente recompensado. Aos 73 anos de idade, Sivuca deu literalmente um show, esbanjando energia, bom humor e um carinho emocionado por Londrina, que o acolheu com tanto entusiasmo. ''É raro um artista tocar para uma cidade mais nova do que ele'', comentou, brincalhão, logo de início, com sua voz caracteristicamente abafada, em decorrência da inutilização de uma de suas cordas vocais. Depois, ressaltou a importância da música, ''um bálsamo contra a violência dos nossos dias''. No mais, em perfeita harmonia, Sivuca e orquestra preencheram os espaços do Ouro Verde com uma alegoria clássica do sertão, mistura de Paganini com Luiz Gonzaga, erudito com popular, em que a sanfona vai em busca do clássico, e a orquestra sinfônica segue atrás dos ritmos tipicamente nordestinos.
O encerramento do show não foi fácil, com aplausos que não se extinguiam e vários retornos de Sivuca ao palco, para mais uma e outra reapresentação. De tudo, no entanto, talvez o que não mais se apague da memória de quem viu, ouviu e se deliciou com o espetáculo, sejam as ''diabruras sanfônicas'' de Sivuca, capaz de mostrar como o clássico nordestino ''Frevo das Vassourinhas'' seria tocado na China, na Rússia, na Itália, na Escócia... Mais uma brincadeira musical do artista brasileiro que, em vez de um pé, colocou uma sanfona no mundo.

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