PONTO DE VISTA Resumo da ópera: choveu dentro e choveu fora
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sexta-feira, 21 de março de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Na platéia, as pessoas pipocavam de um lugar para outro numa tentativa de fugir das goteiras. No palco, chovia quase tanto quanto fora do teatro e os atores faziam um esforço gigantesco para serem ouvidos por causa do barulho dos trovões e da chuva caindo no telhado. A cena nada confortável não é ficção. Aconteceu anteontem à noite, na abertura do 12 Festival de Teatro de Curitiba. Depois de 12 anos de festival, e de situações semelhantes em outras edições, as peças de estréia do evento continuam acontecendo no belo, mas pouco funcional espaço. O resultado é quase sempre desastroso.
No caso da abertura da 12 edição, pelo menos dois fatores contribuiram para o prejuízo. De um lado, uma situação adversa: o mau tempo. De outro uma conjuntura que poderia ser resolvida com antecedência ou simplesmente com a conclusão de que uma peça no Ópera de Arame é sempre um risco e precisa de planejamento. ''O Auto da Paixão e da Alegria'', da Fraternal Companhia de Arte e Malas Arte, de São Paulo, não chega a ser um espetáculo ruim. É muito bem-intencionado, aliás.
Utilizando a já usual fórmula da dupla de andarilhos esfomeados (um deles nordestino, porque o sotaque é mais engraçado), a peça conta a história da passagem de Cristo na terra e até no Nordeste do Brasil, numa interpretação bastante peculiar que consegue arrancar algumas boas risadas da platéia.
Mas depois da primeira meia-hora, os personagens tornam-se enfadonhos. Perdem a característica do auto de envolver o público. Primeiro porque o espetáculo é muito longo e em algumas horas verborrágico demais e segundo porque (novamente) o espaço em que foi apresentada não contribui para o desenrolar da peça. No Ópera o público fica longe, afastado demais, e como o espetáculo não tem um apelo visual convincente logo se perde na grandiosidade do espaço. Com essas características, concorrer com a adversidade do tempo é apenas uma desvantagem a mais.
Mas tudo isso parece não incomodar o público curitibano, que é extremamente benevolente. Ao final da peça, mesmo sem ter compreendido pela dificuldade acústica boa parte da peça, os aplausos são intensos, e em pé como manda a boa educação. Na platéia, poucas figuras globais para dar um brilho especial ao evento. Os patrocinadores do festival, nessa hora, já estavam na entrada do teatro, porque na platéia estavam tomando chuva. Uma espectadora mais atenta chegou até a abrir o guarda-chuva no desenrolar da peça.
Já o governador Roberto Requião não pôde ver o espetáculo nem as más condições do Ópera: estava em Brasília e não prestigiou a abertura do maior festival de teatro do País. Não tem problema, a Secretaria Estadual de Cultura também não está envolvida com o evento este ano.


