É um equívoco do leitor brasileiro - aquele que só lê em português - pensar que conhece os autores estrangeiros. De fato, o que a gente conhece é a versão do tradutor. Para que o conhecimento seja adequado, é preciso que o tradutor seja bom, competente. O que nem sempre acontece. Não por outro motivo, os italianos falam em ‘‘tradutore traditore’’ o que significaria ‘‘tradutor traidor’’, aquele que não é fiel ao texto ou que, o que parece pior, por falta de conhecimento e de vontade comete certas barbaridades ao traduzir.
Lembro do tradutor do livro ‘‘100 Anos de Solidão’’, de Gabriel Garcia Marquez, que, em observações feitas no livro revela que manteve contato com o escritor para traduzir adequadamente o texto, especialmente algumas palavras específicas, tipo expressões idiomáticas sem tradução simples. Uma preocupação que nem todos os tradutores revelam. E que, em muitos casos, isso acaba prejudicando o livro e, por extensão, o autor.
Pior é que há certos pequenos detalhes cujo desconhecimento por parte dos tradutores (que, afinal, deveriam ser competentes porque esta é sua profissão) chega a ser chocante. Já vi numerosas vezes os tradutores de livros policiais norte-americanos transformarem o coroner, título do médico legista em ‘‘coronel’’. Se o leitor tem algum conhecimento da questão, ele percebe o erro. Caso contrário, fica em dúvida sobre o que estará fazendo no contexto de um romance policial um alto graduado militar.
Há muito mais. Entretanto, cito um caso típico, um erro que tenho observado não só em livros mas, também, em filmes. Aliás, os tradutores de filmes, tanto os que produzem as legendas como os que preparam as dublagens são ainda menos cuidadosos que os que traduzem livros. Vai ver é porque seus nomes não são divulgados. A questão é simples, mas curiosa. O presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos (corresponde à Câmara Federal brasileira) é chamado de speaker. Esta palavra, em português, é traduzida como locutor. Na verdade, quando o rádio começou no Brasil, usava-se muito o termo inglês, chamando de speaker o locutor ou narrador. Mas, naturalmente, quando se refere ao presidente da Câmara, não tem nada a ver com locução ou narração.
Todavia, o que se lê, em traduções, é outra coisa. ‘‘Senhor speaker, senhor locutor’’ são termos lidos em legendas ou ouvidos em dublagens. E lidos em livros. Mas o tradutor do livro ‘‘Dívida de Honra’’, um belo romance de Tom Clancy, chamado Ronaldo Sérgio de Biasi, inovou, e passou a chamar o speaker de ‘‘orador’’. Tradução correta, ao pé da letra. Mas errada e falha na versão do que deveria ser. Não estraga o livro, mas deixa dúvidas sobre o tradutor e sua competência.

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