''Frankenstein'', clássico da escritora inglesa Mary Shelley (1797 - 1851), é o tipo de obra que comporta dezenas de leituras. Algumas influenciadas pelo tempo, outras pela espaço, mas sempre reconstruindo o emblemático embate entre criador e criatura.
A companhia holandesa Stuffed Puppet, com o espetáculo ''Re: Frankenstein'', trouxe ao Filo 2003 uma leitura original da obra de Mary Shelley. Apresentando a história a partir da ótica de um auxiliar de Dr. Victor Frankenstein - o médico que cria de seres humanos a partir de pedaços de corpos - oferece uma abordagem melancólica do drama.
O Stuffed Puppet Theatre, sob as mãos de Neville Tranter e Luk van Meerbeke, segue a vertente européia que utiliza a linguagem do teatro de bonecos voltada ao público adulto, não com o objetivo de divertir o espectador, mas de levá-lo a percorrer os corredores sombrios da existência humana. Os dramas mais profundos que o homem se depara sob o sol ou sob a lua.
Com grande domínio técnico, que em vários momentos circunda a perfeição, Neville Tranter dá vida a quatro personagens/bonecos que mergulham numa dramática jornada a caminho da descoberta de uma possível verdade, escura e banhada de desesperança - mesmo quando coberta com pequenas pitadas de humor.
Em ''Re: Frankenstein'' o amor presente na história original de Mary Shelley é deslocado para um campo mais amplo. Deixa de se localizar apenas na batalha de amor e ódio, entre criador e criatura, para se estender numa rede de desejos onde se confundem criadores e criaturas.
A grande sutileza do espetáculo está em estabelecer um jogo metafórico entre ator/manipulador (o criador), os bonecos (as criaturas), e a própria história de Dr. Frankenstein e sua criações monstruosas. Isso fica claro pelo fato do único humano em cena, o ator que interpreta o auxiliar do médico, é o responsável pela vida dos bonecos. Sendo um criador, como Dr. Victor, possui o poder - ou a lucidez - de conceder a vida. E assim também possui o poder - ou a lucidez - de conceder a morte.
Ao realizar uma dramatização do embate entre criador e criatura, ''Re: Frankenstein'', sugere que as criações humanas podem, em algumas situações, representar o âmago da humanidade. E sendo demasiadamente humanas, assumem a imagem de um grande espelho. Um espelho que, para segurança geral, deve ser quebrado.

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