PONTO DE VISTA A luz do delírio
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de maio de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Quando a razão se extingue como a chama de uma vela no interior de uma tempestade, a escuridão instaura seu reinado. Nebuloso, seu reinado é formado por grandes e espessas camadas de imaginação que apenas a liberdade da luz da compreensão pode atravessar.
Poucas são as pessoas que colocam toda a energia da vida na tentativa de estender a luz da compreensão nas mais distintas direções. De conceder ao outro a oportunidade de fazer de sua escuridão o que bem entender. E, se por acaso precisar, de um palito de fósforo para reacender a chama, pode contar com uma mão que o guie até a caixa de fósforos.
''Anjo Duro'', espetáculo que a companhia paulista Ópera Grain trouxe ao Filo 2003, é uma bela demonstração de que a luz da compreensão deve ser acalentada no coração de cada homem. Ao apresentar a vida e as idéias de Nise da Silvera, psiquiatra brasileira pioneira no tratamento humanizado de doentes mentais, revela que o inconsciente é uma rio que todos nós nos banhamos. Um rio que as garras opressivas e dominadoras da razão cuidou deliberadamente de desrespeitar ao longo da história.
''Anjo Duro'', dirigido por Luiz Valcazaras, revela como a simplicidade pode fazer um enorme bem ao teatro. E como ela pode ser o melhor invólucro de um conteúdo que possui raízes nas profundezas. No palco, a atriz Berta Zemel faz do espaço cênico uma velha morada e se permite percorrer o tempo desnudando personagens em busca do lugar onde o brilho da alma se refugia frente a dor.
As transfigurações interpretativas realizadas por Berta Zemel oferecem ao espectador a oportunidade de entrar em contato direto com os chamados ''atletas do inconsciente'', pessoas que atingiram um grau de iluminação que a civilização cartesiana despreza. E como fruto desse desprezo, o sofrimento precisa de muito mais que um faixo de luz da compreensão. Precisa de uma oportunidade de revelação.
''Anjo Duro'' nos faz lembrar que os loucos possuem as vozes mais bonitas da civilização. Ouvi-las talvez não seja agradável aos ouvidos num primeiro momento, mas essas vozes sempre ocuparão algum canto vazio do corpo ou da alma. Isso porque elas são sons que não admitimos que nosso próprio aparelho vocal produza com liberdade.


