Ponto de Vista
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de setembro de 1998
Celina Alonso Az 
Para aquela mulher são dedicados os momentos mais ardorosos. Ela tem a certeza de que quando estão juntos é mesmo por prazer. Nada de cobranças, nada de obrigações. Só por este comportamento já mereceria todos os carinhos, todas as juras e o romantismo. Afinal, está sempre disposta, solícita, disponível, encantadora e pronta para viver um louco amor. Jamais vai falar sobre o aluguel, do seu ronco durante a noite, das contas atrasadas. Não vai lembrar da hora do seu remédio, nem vai reclamar da sua mãe brigando com as crianças. E muito menos cobrar que você já não a ama mais como antigamente. Ela não é o máximo?
Sempre extasiantemente perfumada, deixando transparecer através do andar de felina suas bem traçadas curvas. Ela fala manhosa, chega de mansinho e tem um sorriso estonteante. Que mulher!
Quando você está na sua entediante poltrona, no aconchego enfadonho do lar de domingo, ela está no seu apartamento, sozinha, sonhando, pensando em você. Quando você está tentando conciliar o sono na sua cama de casal de cada dia, ela está sozinha, na cama vazia que você deixou. E nas festas chatas de família, só falta ela para dar o colorido que você não vê mais nas fotos guardadas.
Até nas suas viagens de férias, rotina anual de família, é nela que você pensa e se descabela sozinho no banheiro.
Felizmente tem a volta ao trabalho. As fugidinhas do almoço executivo. O olho no olho, as mãos se encontrando na hora do cafezinho. E aquela bendita reunião imprevista, ou o chopinho com os amigos da sexta a noite, quando você finalmente é feliz.
Enquanto tudo na sua casa está pegando fogo e você só chega na hora de apagar o incêndio, ela está lá sentada ao lado do telefone te esperando. Sua voz macia faz com que você esqueça dos conflitos com os filhos, da medíocre vidinha sexual pró-forma e o principal: das muitas contas a pagar.
Ela te faz esquecer da calvície, dos problemas gástricos e das dores na coluna. Graças a ela, você conseguiu se isolar dos problemas da casa e das cobranças da família. Com ela você remoçou, virou um latin-lover, é um novo homem. Pode até comer e beber o que a vigilância doméstica te proíbe. Pode dançar sem reclamar da artrite. Pode tudo. E ela não pede nada em troca. Como pôde viver tantos anos sem ela? Como consegue passar um dia sem ouvir seu riso solto? Sem acariciar seu belo par de pernas e sem fazer amor como um menino? Ela o liberta das correntes do casamento. É o bálsamo contra a rotina. Para ela você manda flores. Por ela você aposenta o chinelão, faz abdominais e desliga a TV na hora do futebol. Para ela você até faz supermercado. Enfrenta filas, paga sorrindo. Quando sai com ela produz mais o visual. Deixa de lado aquele mau humor que sua esposa tanto crítica.
Hoje é o dia dela. Leve-a para jantar, dê aquele presente que nunca achou que valesse a pena dar para a outra, sua boa e velha esposa.
Viva este amor com toda a intensidade porque logo ela vai trocá-lo por um bem mais moço e tudo volta a ser como era antes.


