Colocar num mesmo plano teatral a fantasia e a atrocidade pode ser complexo e arriscado. Sempre existe a possibilidade de se fantasiar a crueldade, ou violentar a fantasia. Em sua mais recente montagem, ''Andersen's Dream'', a companhia dinamarquesa Odin Teatret resolveu correr o risco.
Uma dos destaques do Filo, ''Andersen's Dream'' foi idealizado dentro das comemorações aos 200 anos de nascimento do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen ocorridas em 2005. A fantasia dos contos de fadas de Andersen, na montagem, foi colocada lado a lado com a violência da escravidão dos africanos.
O Odin Teatret traduz no palco um sonho de Andersen anotado em seu diário de 1875. Um sonho que revela esse mesmo encontro entre a fantasia e a crueldade da escravidão humana. Com o álibi de percorrer um universo onírico, o conceito do espetáculo percorre caminhos ilógicos, onde a livre associação torna-se instrumento de linguagem. De recorte em recorte, a condução narrativa reproduz as possibilidade delirantes dos sonhos.
Algo como colocar uma criança sozinha e nua diante de uma atrocidade em seu momento de erupção. Numa situação assim, aquilo que realmente interessa não é a realidade, mas aquilo que fica registrado na memória da criança diante de tal realidade. Uma memória que faz da fantasia e dos sonhos um instrumento de superação da fúria do real. Esse é o caminho da montagem.
Num primeiro momento, ''Andersen's Dream'' parece ser um espetáculo difícil de ser assimilado. Isso porque está estruturado numa constante e sucessiva avalanche de signos, elementos associativos e fragmentos. Parte desses signos e elementos não chega a se completar enquanto idéia fechada. Cabe ao espectador preencher essas lacunas, empreender uma viagem imaginativa própria.
Talvez ''Andersen's Dream'' seja a produção mais sofisticada da história do Odin Teatret, sempre pautada pela simplicidade do Teatro Antropológico criado por Eugenio Barba. A impressão que surge é que a companhia se dispôs a colocar, numa única montagem, todas as informações de seu amplo leque de pesquisa teatral e recursos cênicos.
Todo esse excesso pode ser visto como instrumento da construção de uma atmosfera onírica que envolve o público numa rara experiência estética. Uma atmosfera que funciona com uma espécie de figurino para o conteúdo essencial. Algo que projeta a alegria de maneira extremamente sutil em direção a uma tristeza indizível. Um tipo de tristeza que se sobrepõe ao deslumbramento como névoa. Um tipo de lágrima invisível que veste a fantasia com o manto da realidade. Um jogo entre o homem e a arte.

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