PONTO DE VISTA
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de junho de 2005
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Em alguns espetáculos, na hora de entrar no teatro, é aconselhável que o espectador desligue a razão. Do mesmo modo como desliga seu celular. Isso porque ela não terá nenhuma utilidade, ou mesmo pode atrapalhar o andamento das coisas se decidir fazer barulho.
White Cabin, hoje em sua última apresentação no FILO 2005, se enquadra adequadamente nesse tipo de espetáculo. Montagem da companhia russa Akhe Group, trabalha a partir da estética do chamado teatro de imagem.
Desprovido de texto, White Cabin é uma sucessão de imagens simultâneas que se intercalam e, ao mesmo tempo, se sobrepõem. O efeito resultante pode ser comparado às viagens oníricas, bem próximo das alucinações que subjugam a razão e a lógica.
A estrutura está em criar janelas dentro de janelas. E em cada uma delas gerar uma imagem. Surgem, assim, três ou quatro imagens sobrepostas onde, através de fotografias, filmes, atores e música, realidade e realismo são chutados sumariamente para fora do teatro.
Elementos de ilusionismo e referências clown são incorporados para inundar o palco da dança do inesperado e do impensado. White Cabin é uma poética de imagem, como um animal correndo livre pela noite. Cego em sua dispersão de energia, não distingue flores de espinhos.
O acúmulo de informação imagética chega a colocar o olhar num impasse: a escolha. Sem conseguir acompanhar a enorme quantidade de imagens, o olho precisa realizar a escolha de seu foco. Uma espécie de reprodução estética do ritmo alucinado do mundo contemporâneo.
Para apreender algum sentido de White Cabin, o espectador precisará associar elementos, um após outro, para construir sua própria leitura. Os possíveis caminhos sugeridos são amplos e diversos. Além de associar, precisará escolher os elementos mais próximos de suas íntimas referências.
O inconsciente, nesse universo, passeia como um animal selvagem farejando alimento. E, no decorrer de 60 minutos do espetáculo, a razão solicita que permaneça desligada. Praticamente hipnotizada e quase feliz.


