Música para embalar a filosofia

Filosofia, palavra de origem grega e, na sua origem, entendida como ''amor à sabedoria'', vincula-se à idéia de um estudo incessante, que busca compreender a realidade da vida em seu sentido mais amplo. Curiosamente, os filósofos, como categoria, são considerados distantes dessa realidade que procuram entender tão profundamente e, por isso, fadados a permanecer herméticos e enigmáticos em tratados esquecidos nas prateleiras. Contudo, pensando bem, há muita filosofia espalhada por aí, nem tão profunda, nem tão abrangente quanto gostariam os ortodoxos, mas igualmente estimulante para quem aprecia refletir sobre a vida.
E nem é preciso ir longe, no espaço ou no tempo, para encontrá-la. Basta, por exemplo, deixar-se embalar pela música. ''Quinze minutos de fama / mais um pros comerciais / quinze minutos de fama / depois descanse em paz'', cantam os Titãs, referindo-se à necessidade atualíssima, quase exigência, de sucesso a qualquer preço que as pessoas se impõem. Na música de Sérgio Britto e Branco Mello - ''A melhor banda de todos os tempos da última semana'' -, a ironia em relação à essa dourada ilusão começa no título e segue pela descrição de ''vitórias'', no mínimo, discutíveis: ''o melhor disco brasileiro de música americana / o melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado / o maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos''. Quem estranha o jogo de palavras, consegue esclarecê-lo no verso seguinte: ''Não importa a contradição / o que importa é televisão / dizem que não há nada a que você não se acostume / cala a boca e aumenta o volume então''.
A televisão como símbolo maior de uma tecnologia que nos aproxima, mas confunde nossos valores, deixando-nos mais vulneráveis ao fascínio das ilusões, também aparece no ''Já sei namorar'', dos ''tribalistas'' Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte: ''Não tenho paciência pra televisão / Eu não sou audiência para a solidão''. Mas a idéia do trio talvez seja mesmo a de mostrar os horizontes que se situam além da padronização imposta pelos meios de comunicação: ''Já sei onde ir / Já sei onde ficar / Agora, só me falta sair''. E que o viver não depende de regras pré-definidas: ''Não tenho juiz /Se você quer a vida em jogo / Eu quero é ser feliz''. E ainda que a fraternidade está acima de interesses menores: ''Eu sou de ninguém /Eu sou de todo mundo / E todo mundo me quer bem''.
Com tudo tão apequenado, complicado e confuso, quem sabe o caminho seja largar o corpo e seguir em frente, como diz Lulu Santos em ''Creio'': ''O futuro pertence / a quem menos esperar / normalmente a sorte está / com quem não se dá / nem conta. / Cada pessoa nasceu / com o seu destino / ainda que por procurar. / Tudo é incerto / e por isso mesmo exato / tudo o que for pra ser, será''. Aceitação e simplicidade estão presentes, igualmente, na música ''Vou levando a vida'', de Peninha, Elias Muniz e Luiz Carlos, na qual a filosofia do ''ir levando a vida, enquanto a vida nos leva'' ganha corpo sem esforço: ''Eu gosto de andar sozinho / Eu creio em disco voador / Sou eu quem faz o meu destino / Não gosto muito de política / Tô procurando um grande amor / Sou um sujeito meio tímido / Quem fala pouco, saca tudo, baby / Saber ouvir é mais saber / Sou aprendiz desses mistérios do viver''.
E aprendizes continuaremos a ser, pois os mistérios teimam em permanecer misteriosos, apesar de toda a filosofia. A não ser que usemos, para saber, apreender e tentar esclarecer o inexplicável, o filtro do amor. Como afirmava Renato Russo em ''Monte Castelo'', repetindo as palavras de Paulo aos coríntios: ''Ainda que eu falasse a língua dos homens / e falasse a língua dos anjos / sem amor eu nada seria''. E como é só o amor ''que conhece o que é verdade'', não há, apesar de todo o esforço do intelecto, como enxergar o que é preciso: ''Agora vejo em parte'', refletia Russo, ''mas'', tendo o amor como ponto de partida e de chegada, ''então veremos face a face''.
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna ''Aqui TV'' de Estelio Feldman.

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