O Filo 2002 deu um salto de qualidade abordando um tema universal: a dor da perda. O espetáculo ‘‘Cuando Tú no Estás’’, com o grupo Seres de Luz, de Campinas (SP), apresentado no Teatro Zaqueu de Melo, se revelou uma comovente trajetória pelo sentimento do abandono. Tema fácil de tornar piegas. A dupla de titereiros (manipuladores de bonecos), Abel Saavedra e Lily Curcio contaram por gestos delicados e minimalistas três histórias que deram voz ao abandono.
O impressionante rigor com que Abel e Lily realizaram esse trabalho proporcionou ao público a feliz experiência de formar em vários momentos um só organismo, uma só respiração. Os manipuladores que se alternavam na condução dos bonecos mostraram uma afinada sintonia da ânima (alma) dos bonecos.
A preciosidade dos movimentos apresentados pelo Seres de Luz revelou um conhecimento aprofundado do funcionamento da anatomia humana para chegar tão perto dos meandros da alma. Segundo Freud, a imagem aproxima-se mais rapidamente dos processos inconscientes que o pensamento verbal. E esse atalho da psique fez com que o espetáculo ‘‘Cuando Tú no Estás’’ chegasse mais rapidamente ao coração.
Simples e refinado, não havia no espetáculo uma sequência de obstáculos semióticos para a instauração do processo de significação. Numa das cenas mais comoventes, uma mulher se despede de um grande amor. Em movimentos lentos e longíneos, a ilusão da imagem do amado se distanciando se tornou concreta. Depois da perda, do choro profundo e da dor contida, a platéia ficou magnetizada. Ao final Abel e Lily não apareceram ao palco para receber os calorosos aplausos do público, o que potencializou o sentimento de perda. Trafegando por uma outra extremidade, o grupo de São Paulo Núcleo Omstrab, apresentou no Ouro Verde uma proposta que pretendia discutir na dança as formas usadas pelo homem para se locomover. Dramaturgicamente, ‘‘Omnibus’’ se emparelhou a um samba-enredo, sem precisar de passarela.
O efeito dos elementos de cena surpreenderam pelo inusitado e pela forma eficaz como foram utilizados. Uma vara se prestava a mil e uma utilidades, corrimão de escada, mastro de navio, porta giratória... A atmosfera criada pelo ‘‘Omstrab’’ tinha como elemento a ingenuidade. Foi o humor ingênuo na abordagem do tema que conquistou o público de imediato. A ingenuidade na finalização e costura do espetáculo foi o lado frágil da encenação. A fábula do transporte, por vezes tão sutil, levava a outros caminhos. O grupo mostrou a versatilidade, quando passava da música, para a dança e para a encenação teatral. Nesse itinerário da dança-teatro, corpo é som e movimento, com o humor como lubrificante.

mockup