Francelino França
De Curitiba
A essência do teatro de Denise Stoklos pode ser traduzida numa palavra: inconformismo. Os sentidos esponjosos da múltipla atriz continuam absorvendo e lutando contra tudo o que toma forma de resignação. Para denunciar a injustiça social e o comportamento estúpido ditados pelo padrão social, Denise se vale de sua autoridade de atriz, ou melhor, de grande atriz.
Dessa vez, com ‘‘Vozes Dissonantes’’, Stoklos traça um panorama da história brasileira desde os primórdios daquilo que chamamos de Piauí, desembocando nas mazelas que afligem o País, nesse início de ano 2000. O manifesto levado ao palco do Guaíra descreveu a geografia dos abandonados, com um forte teor de ironia.
Denise Stoklos é uma atriz de muitas certezas. Não se submete às regras de mercado, continua coerente com suas convicções amalgamadas na força do trabalho do ator. Mas, para o público fiel, a atriz vem semeando dúvidas. Entre tantas, o público se questiona sobre o que há de novo nessa edição do Teatro Essencial de Stoklos? Afinal, seu manifesto continua pungente, seu ponto de vista ácido se desdobra a cada novo espetáculo. A retórica e gesto se irmanam sempre de forma audaciosa. Além disso, seu excepcional controle de corpo e espaço cênico parecem não mostrar sinal de esgotamento.
Mesmo com as falas ásperas, ‘‘Vozes Dissonantes’’ se apresenta como variação do mesmo tema. Na estréia em Curitiba, a bem comportada platéia aplaudiu a encenação burocraticamente. ‘‘Vozes Dissonantes’’ não alcançou a força esfuziante de ‘‘Desobediência Civil’’, que tocou duplamente o coração e a mente do público. A atriz pôde sentir com a reação da platéia um nível menor de envolvimento e cumplicidade com ‘‘Vozes...’’
Em determinados momentos, Denise Stoklos chegava ao limite de uma grande conferência antropológica. A imensidão do palco do Teatro Guaíra contribuiu para esse arrefecimento com a platéia, numa distância crescente.
‘‘Vozes Dissonantes’’, se fosse apresentado para os dominados e reprimidos que inspiraram o espetáculo, já seria outro espetáculo. A resposta da platéia seria diferente e mais inspiradora para a atriz. Talvez seja mesmo um problema de fidelidade. Que bom se os nossos limpos de corpo e alma – os índios – e os hércules-quasímodos – os sertanejos – pudessem compartilhar com Denise Stoklos do manifesto em forma de Teatro Essencial, ainda inesgotável, nesses 500 anos de paradoxos e incoerências.

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