A maioria dos espetáculos do lendário Odin Teatret avançam através do universo cênico para se tornarem verdadeiras celebrações estéticas. ‘‘Mythos’’ apresentado pela companhia dinamarquesa no Filo/99 não foge a essa tendência. No caso, realiza uma celebração estética da morte.
O trabalho do Odin Teatret em ‘‘Mythos’’ está pautado na construção de signos. E nisso, a montagem é uma exuberante correnteza. Uma cascata de símbolos, visuais e auditivos, que seguem o leito de um rio narrativo personalizado. Signos se transformam, transmutam, como poesia inesperada ou estações do ano sempre aguardadas. Em cada simbologia, em cada elemento minuciosamente estruturado, o espectador pode realizar sua leitura tanto no sentido lógico, do significado para a significação, como pode inverter o processo, caminhar da significação para o significado.
O espetáculo coloca num mesmo tempo/espaço entidades da mitologia grega (Ulisses, Medéia, Ícaro, Dédalo, Édipo, etc.) e um homem (Guilhermano Barbosa, um dos revolucionários que integraram a Coluna Prestes). Esse encontro revela que os mitos são decorrências naturais das manifestações humanas, tanto em nome do bem como do mal. Paralelamente, revela que a humanidade é uma expressão de seus mitos e a morte pode representar uma aspiração de nivelamento entre homens e deuses.
A utilização da imagem de Guilhermino em ‘‘Mythos’’ não está fundamentada na pessoa de Guilhermino, mas no arquétipo que ele representa, a imagem utópica da ação transformadora. Como a realidade é sempre maior que a ação, as civilizações estão fadadas a enterrar seu mortos em valas comuns. A eterna memória de sepulcros não elimina a morte, muito menos as atrocidades.
O fato é que estamos enterrando nossos mortos há milênios e vamos continuar enterrando-os. Os homens matam porque desejam viver. Vivem em detrimento de outros porque são incapazes, assim como os deuses, de viver por si próprios.
As mãos da humanidade, quando não estão ocupadas abrindo sepulturas, estão dormindo o pesadelo dos justos.

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