Ponto de Vista
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de fevereiro de 1999
Ranulfo Pedreiro 
Se fosse de Música Estrangeira talvez fosse menos pior. Mas o Grammy de World Music levanta suspeitas. Enquanto Gilberto Gil comemorou com exclamações exageradas, indicando a afirmação da MPB no exterior, creio que a premiação é uma espécie de afago do agressor, algo como bater acariciando.
É óbvio que o Grammy obedece parâmetros da indústria fonográfica americana - principalmente vendagem - que tem poderosos tentáculos no Brasil - um dos maiores mercados mundiais. Também é claro que a música brasileira entra nos Estados Unidos com amplas restrições. Alguns compositores, obviamente, ganham um respeito maior. Mas a maioria é vista como invasão latina, coisa de terceiro mundo. Boa, mas de terceiro mundo.
Outro dia um conhecido instrumentista brasileiro me falou da dificuldade de tocar nos Estados Unidos. Lá, onde conseguiu certo espaço, conheceu um trompetista que, para se firmar no mercado do jazz americano com nome respeitável, batalhou mais de dez anos, afastando as características latinas de seu trabalho. Ou seja, o músico brasileiro pode até ser respeitado, mas não é visto em pé de igualdade. Tanto que o próprio Gilberto Gil afirmou não ter sido convidado para a festa, não estava sabendo, descobriu pela televisão.
O rótulo World Music, no Grammy, confirma esse olhar de cima. Fora desse rótulo se instalam a música - principalmente no mundo pop - americana e britânica. Se países como França ou Itália voltarem a frequentar as paradas, não serão consideradas World Music. As músicas pop australiana, alemã, escocesa e canadense também não são submetidas a esse estereótipo, que parece reunir principalmente obras de países subdesenvolvidos.
A impressão que se tem é a da ótica do colonizador acariciando o colonizado. Não é à toa que World Music está associada a sonoridades não convencionais e, frequentemente, vem acompanhada de adjetivos como exótico ou estranho. O termo ganhou força em tempos de globalização - outro estereótipo desenvolvido para um processo de mão única - quando a new age perdeu força e se fundiu à música celta e outros estilos, e os místicos passaram a abrir os olhos para a sonoridade de alguns países que não eram reconhecidos musicalmente. O mercado descobriu essa fatia e foi, aos poucos, conquistando-a. Algumas vezes com selos alternativos, como o Putumayo. Outras com grandes gravadoras.
Tem muita gente boa sobre essa égide, como Ricardo Lemva. Assim como Gilberto Gil teve ótimos momentos na história da MPB. O problema é compartimentar essa produção em termos inflexíveis e desiguais, algumas vezes preconceituosos.
O Grammy de World Music, num momento que não é dos melhores na carreira de Gilberto Gil, vem reafirmar a indústria fonográfica brasileira e sua importância mercadológica. Mas não se trata de um elogio ou reconhecimento de nossa produção cultural. Agrupar no mesmo saco a música feita em países de culturas tão díspares como China, África do Sul e Venezuela, por exemplo, é, no mínimo, relegá-las a um segundo plano.


