A indicação de ‘‘Central do Brasil’’’ como candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, unida à designação de nossa Fernanda Montenegro como candidata ao Oscar de melhor atriz, provocaram natural euforia. Produções brasileiras têm sido nomeadas para o Oscar de filme estrangeiro, com certa frequência, nos últimos tempos: ‘‘O Que É Isto Companheiro?’’ e ‘‘O Quatrilho’’ são exemplos recentes. Em ambos os casos citados, ficamos na indicação. Com ‘‘Central do Brasil’’ as esperanças são até maiores: o filme conquistou uma série de prêmios, inclusive o Urso de Ouro de Berlim e o Globo de Ouro, prêmio norte-americano que muitos consideram uma prévia do Oscar. Já a indicação de Fernanda Montenegro não parece ter maiores possibilidades. Poucas estrelas estrangeiras chegaram a ser indicadas para o Oscar. Só uma, Sofia Loren, ganhou.
O que causa, porém, maior preocupação não é a possibilidade maior ou menor, da atriz ou do filme, de conquistar o Oscar, mas o modo como muitos estão vendo o assunto. Repete-se agora o que se percebeu principalmente o ano passado quando a não escolha de ‘‘O Que É Isto Companheiro?’’ provocou desapontamento que, em alguns casos, parecia luto nacional. Isto porque os chamados ‘‘especialistas’’ perderam de vista o fato principal sobre o prêmio.
O Oscar não é o maior prêmio do cinema mundial. Não é, também, a consagração definitiva de um filme ou de um ator. É, principalmente, o prêmio do cinema norte-americano dado a produções dos Estados Unidos (por vezes abrindo um pouco o leque) e que consagra os vencedores sob o ponto de vista da indústria e da arte daquele país. No caso brasileiro, nossa dependência cultural, que vem principalmente do final da Segunda Guerra (antes, principalmente na época da monarquia, nós tínhamos dependência cultural européia, especialmente francesa) nos faz considerar prêmios nos Estados Unidos superiores a qualquer coisa.
‘‘Central do Brasil’’ já se consagrou como um dos filmes mais premiados produzidos entre nós. Os prêmios, inclusive os conquistados por Fernanda Montenegro, representam um reconhecimento internacional fantástico. A indicação ao Oscar apenas evidencia que também os norte-americanos reconhecem o valor da produção e o talento da nossa atriz. Mas assim como ganhar o Oscar significa apenas mais um prêmio, desta vez dado pelos membros da Academia norte-americana, a não conquista da estatueta não significa demérito. Cinema não é futebol. Se a gente não ganha o Mundial de futebol, nem o vice vale coisa alguma, pelo menos para os brasileiros. Os times não disputam campeonatos, apenas vão abrindo caminho para tentar o mundial em Tóquio.
Com o cinema, não é assim, não deve ser assim. Com ou sem Oscar, temos um filme que mereceu respeito, admiração, aclamação em quase todo o mundo. Se para os padrões do Oscar isto não vale, pior para os que inventaram este prêmio. Vamos, claro, torcer pela conquista, mas não podemos é ficar infelizes se a Academia de Hollywood der o prêmio a outro filme ou a outra estrela. Para nós e para muitos, no mundo, ‘‘Central do Brasil’’ e Fernanda Montenegro já estão suficientemente consagrados.

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