Ponto de Vista
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de fevereiro de 1999
Estelio Feldman 
A minissérie Chiquinha Gonzaga que a Globo lançou neste começo de ano, está conseguindo uma reação positiva que chega a surpreender. Afinal, não é uma historieta típica mas a dramatização da vida de uma personagem real, não muito conhecida, pelo menos até agora, apesar de toda a fama que Chiquinha Gonzaga teve e tem. Os índices de audiência obtidos até agora são excelentes, ainda mais para o horário que não é dos mais adequados quando se visa ao grande público.
Naturalmente, muitos fatores contribuem para isto. O mais importante porém é perceber que quando a TV trata bem o público, oferecendo coisas feitas com capricho e cuidado, a resposta é positiva. Chiquinha Gonzaga é uma produção muito bem realizada, com cuidados fantásticos. O elenco é bom, a cenografia é ótima, o trabalho é sério, profissional. Mas o mais importante é o tema. Chiquinha Gonzaga é uma personagem excepcional, uma pessoa que marcou não só a música brasileira mas a própria história com uma coragem que ainda é maior pela época em que viveu.
O Brasil precisa e tem que fazer este tipo de resgate de gente que marcou a vida nacional. Não temos isto nem mesmo em termos de História. E é fora de dúvida que isto também afeta a própria auto-estima do povo. Chiquinha Gonzaga foi uma pessoa de coragem fantástica. A obra musical que deixou é importante, mas o contexto de sua vida, a força que precisou mostrar para enfrentar os preconceitos de uma época que igualava as mulheres aos escravos (em muitos casos elas chegavam a ser tratadas pior até) isto representa um fato que merece ser retratado e divulgado.
Claro, já houve comentários sobre a forma romanceada dada à minissérie, com críticas a certos fatos apontados no trabalho. Ora, é preciso entender que a adaptação precisa ter liberdade. O maior feito de Chiquinha Gonzaga não foram os romances mostrados na minissérie, foi sua coragem, sua força, sua grandeza. Mas é certo que para oferecer a dimensão que a obra televisiva reclama seria preciso a liberdade que está sendo usada.
Se de fato o romance de Chiquinha com JB (João Batista) não foi como está sendo mostrado, isto é o de menos. O que é fato é que aquela brasileira enfrentou com coragem os preconceitos e a hipocrisia de uma época e abriu caminho para que as mulheres conquistassem o lugar que hoje ocupam.
E a excelente repercussão que a minissérie vem obtendo, inclusive com muita gente já pedindo reprise e outros sugerindo que o trabalho seja editado em vídeo, mostra que a Globo acertou de novo. De fato, Chiquinha Gonzaga é um trabalho de resgate histórico que vale a pena e que merece, mesmo, ser acompanhado com emoção e carinho.


