PONTO DE VISTA - Uma oração ao destino
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de março de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A vida é um risco sucessivo. Seja sobre unhas coloridas pelo sol, seja sob olhos enegrecidos pela chuva. Em qualquer situação, o risco está sempre dizendo mais que os ouvidos conseguem ouvir.
O risco não é silencioso. Pelo contrário, grita como um louco grita para a divindade da dúvida. Realiza opções como um fiel entoa uma oração ao destino.
''Dança lenta no local do crime'' oferece um desenho de como as implicações da vida trazem o risco. E, por ironia do destino, esse risco torna-se a essência da própria vida.
Escrito pelo norte-americano William Hanley na década de 60, o espetáculo possui uma estrutura recorrente no universo literário: três personagens, estranhos entre si e com características distintas, se encontram por obra do acaso, num mesmo local durante um tempo determinado.
Mas Hanley vai além. Coloca no interior de cada personagem um segredo que pode ser revelado apenas a estranhos. Esse segredo é justamente um crime, ou uma idéia de crime. E ele aparece acompanhado, de um lado a culpa, de outro a liberdade.
A montagem de ''Dança lenta no local do crime'', que estréia hoje no Festival de Teatro de Curitiba com direção de Luiz Valcazaras, está pautada nos dois principais pilares da arte teatral: texto e ator. Trabalha com elementos da estética naturalista, algo não usual nos espetáculos realizados anteriormente pelo diretor.
Trata-se de uma história narrada de maneira ascendente. Revela que não existe lei moral ou jurídica capaz de eliminar o poder de escolha do ser humano. Escolhas são feitas independentes delas, são regidas por princípios muito labirínticos que qualquer razão consegue decodificar. E ao final de tudo, a realidade se revela uma enorme e sólida pedra dentro dos olhos.
O grande sentido de ''Dança lenta no local do crime'', que traz no elenco Antonio Galleão, Regiane Alves e Rogério Brito, pode ser recolhido na palma da mão. Toda vez que realizamos uma opção, seja ela qual for, estamos abraçando a liberdade. Se alguma coisa foge ao ilusório controle, abraçamos a culpa.
Assim, cada escolha deve ser encarada como uma posição diante da vida, independe das consequências. Escolhas que devem ser seguidas e respeitadas até o fim. Podem conter erros ou acertos, mas fazem parte da vida, e por isso, merecem respeito.


